• Leandro de Sousa

Crítica | Bacurau (2019)


Direção

Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho

Roteiro

Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho

Elenco

Bárbara Colen, Sônia Braga, Udo Kier, Jonny Mars, Chris Doubek, Alli Willow, Brian Townes, Julia Marie Peterson, Karine Teles, Antonio Saboia, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Clébia Sousa, Zoraide Coleto, Luciana Souza, Edilson Silva, Wilson Rabelo, Márcio Fecher, Rubens Santos, Valmir do Côco, James Turpin, Lia de Itamaracá, Suzy Lopes, Buda Lira, Fabiola Liper, Charles Hodges, Jr. Black, Ingrid Trigueiro, Val Junior, Eduarda Samara, Rodger Rogério, Uirá dos Reis, Jamila Facury, Danny Barbosa, Thardelly Lima e Carlos Francisco

Data de Lançamento

29 de Agosto de 2019

Nota

⭐⭐⭐⭐

 Crítica | Bacurau (2019)

Nos seus filmes anteriores, especificamente em Aquarius e O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho explora as atmosferas dessas obras de forma pessoal com alguns momentos de agitação externa, já que o ponto aqui é o conflito interno dos personagens. O que se nota agora é a vontade do diretor, ao lado de Juliano Dornelles (que também dirige e assina o roteiro), de se aventurar por uma nova linguagem ao empregar uma violência súbita e intensa, porém necessária, em seu novo longa, Bacurau. Aqui estamos longe de qualquer civilidade apresentada nos filmes usados de exemplo. Mendonça e Dornelles deixam de lado a narrativa pessoal explorada nessas obras e focam em contextos sociopolíticos de uma comunidade no meio do nada, abandonada por seus governantes. “O que significa Bacurau?” pergunta a personagem de Karine Teles à atendente em um barzinho na cidade. E essa é a pergunta que se faz durante toda a projeção, que se inicia com a câmera no espaço que aos poucos vai focando em nosso planeta azul – recomendo que terraplanistas se atrasem um pouco para entrar na sessão e evitar qualquer polêmica - especificamente na região do Nordeste brasileiro, aonde se situa a comunidade de Bacurau, próxima da Serra Verde em Pernambuco. Ao chegar em “terra firme” vemos Teresa (Colem) em um caminhão pipa ao lado de Erivaldo (Santos). Subitamente eles se deparam com um caixão no meio da estrada, depois outro e mais outro. Fica claro como aquele lugar desértico, amarelado e acima de tudo quente - características muito bem expressas no excelente trabalho de fotografia de Pedro Sotero que volta a fazer parceria com Kléber depois de seu formidável trabalho nos longas citado de início - é escasso nas necessidades mais básicas do ser humano. O roteiro já demonstra a irmandade daquelas pessoas logo nessa sequência inicial, ao aparecer a imagem de um homem procurado na pequena tv no caminhão e ambos os passageiros dizem que não pretendem entregar o homem, que tem a alcunha de Lunga (Pereira). Chegamos a Bacurau; a cidade está de luto, e Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), uma celebre moradora e Avó de Teresa, havia falecido. Teresa vai andando aos poucos, cumprimentando a todos enquanto arrasta uma mala, que continha remédios. A serenidade de Teresa fica bem aparente pelo trabalho de atuação de Colem, algo que para alguns poderia denotar uma incapacidade da atriz de transparecer qualquer emoção, apenas soa como uma característica inerente à sua personagem, que parece sempre estar calma mesmo diante de situações de crise e tristeza, como a que se encontra nesse momento do longa. Durante o enterro, a mesma vê água saindo do caixão, sua serenidade parece dar lugar a um sentimento de preocupação. A morte estava por chegar a Bacurau. “Todo bom filme é também um documento de sua época”, dizia Eric Rohmer. Bacurau é um documento histórico que se passa daqui a 5, 10, 20 anos, uma visão não do que pode vir a acontecer, mas do que já está acontecendo. O fato de o roteiro somente sugerir a data que o longa se passa, como em cenas aonde vemos imagens de câmeras de segurança mostrando o dia e o mês no qual foram gravadas mas nunca o ano, revela a vontade dos autores de deixar isso a cabo do espectador. Práticas políticas muito comuns em cidades pequenas do nordeste ainda estão presentes, mesmo daqui a alguns anos, como o prefeito (Lima) ir até lá e pedir votos quando está próximo da eleição, algo que ajuda a entender melhor o caminho que o roteiro escolhe seguir. Tudo é contado de forma tranquila, como Teresa, até o clímax, a partir daí conhecemos nossos verdadeiros vilões. Aqui a água começa a entornar através de furos de balas. Em tempos de um governo entreguista e submisso à potências imperialistas, Bacurau reforça seu papel como um documento para as gerações futuras ao colocar agentes do governo americano como os grandes antagonistas da história, além de deixar claro o apego à realidade ao colocar diálogos como aquele no qual a personagem de Karine Teles e Antônio Saboia dizem aos agentes americanos que eles são como eles, pois vieram do Sul, ao passo que os mesmos passam a zombar deles após essa fala. E essa ação de zombaria toma lugar à selvageria ao notar que os mesmos tratam as pessoas daquela região apenas como números, sem nenhuma compaixão ao executarem suas caçadas. Dói admitir, mas é inevitável Jogos Vorazes não vir à mente ao ouvir certas linhas de diálogos desses estrangeiros. Todavia, diferente deste não há heróis entre os que caçam – além de ser uma história com substância. Na verdade, Bacurau não demonstra interesse em definir um protagonista, mesmo Teresa não parece possuir essa função. E Sônia Braga, apesar de ser brilhante em sua atuação, aparece apagada aqui, com uma personagem que está perdida de si. Domingas é uma mãe para a comunidade, ao passo que demonstra um cansaço latente de tudo aquilo, sendo apenas uma lembrança do que restou de Carmelita e a cumplicidade das duas como matriarcas daquele local, além de ter problemas com álcool - como é dito no começo -, algo que promove uma dualidade à sua personagem que mesmo assim é pouco explorada ao longo da projeção. Parece que Kleber quis repetir a formidável parceria de Aquarius, como se para o diretor, Braga fosse o que Samuel L. Jackson é para Tarantino. Por falar em Tarantino, chegamos no ponto aonde aqueles estrangeiros passam a pagar por sua arrogância. Ao subestimar a capacidade daquelas pessoas, os americanos apenas demonstram sua total ignorância à história daquele local e de forma súbita, Mendonça e Dornelles resolvem explodir a cara de um dos agentes, o que inevitavelmente evoca... bom, qualquer filme de Quentin Tarantino vai ter algo do gênero – Era Uma Vez em Hollywood, que está mais fresco em sua mente, não me deixa mentir. A grande diferença entre a estética tarantinesca usada aqui, é que a intenção de Kleber e Juliano não é fazer rir com o absurdo, e sim demonstrar a força daquele local que outrora fora lavado com sangue do cangaço e de suas vítimas. E por essa razão, para se defender, eles recorrem às origens, portanto a convocação de Lunga se faz mais do que necessária na transição para o segundo ato, já que ele e seus parceiros são a lembrança de um Nordeste sem lei. E esse Nordeste fica evidente nas paredes do museu de Bacurau, aonde um dos agentes entra e descobre nossa história, mas quando isso acontece já é tarde demais, a última imagem que ele vê é a de Lunga e a fúria de Bacurau cortando sua carne com uma peixeira. Suas cabeças são exposta como um prêmio, como aconteceu com Lampião, Maria Bonita e seu bando. A fúria nordestina cai sobre aqueles que duvidaram, e no final eles enterram o imperialismo na mesma prisão que se protegeram dele. Era só o começo, eles sabiam, mas Bacurau é resistente, o revólver, a peixeira e a fúria nordestina corria no sangue daquele povo. Além de um forte psicotrópico. 

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as