• Matheus P. Oliveira

Crítica | Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019)


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Direção

Ari Aster

Roteiro

Ari Aster

Elenco

Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Dag Andersson, Björn Andrésen, Anders Back, Anders Beckman, Mats Blomgren, Klaudia Csányi, Tomas Engström, Dóra Ferenczi, Austin R. Grant, Anna Åström, Julia Ragnarsson, Liv Mjönes, Louise Peterhoff, Anki Larsson, Rebecka Johnston, Katarina Weidhagen van Hal, Hampus Hallberg, Lars Väringer, Tove Skeidsvoll, Lennart R. Svensson, Balázs Megyeri

Nome Original

Midsommar

Data de Lançamento

19 de Setembro de 2019

Nota

⭐⭐⭐⭐

CRÍTICA | MIDSOMMAR (2019)

O clichê é uma constante no cinema, e sempre será, porque inúmeras histórias já foram contadas em tudo quanto é filme, e através de diversos artifícios criativos elas foram tratadas. Tido como uma forma preguiçosa de criar narrativas formulaicas e de resolver situações dramáticas, o clichê abraça o que há de mais convencional, porque quem o aplica decide não trilhar caminhos duvidosos que tragam a probabilidade do fracasso. Por isso, o usam a balde, e neste sentido ele é inevitável. No entanto, é possível evitá-lo sem ter que necessariamente rejeitá-lo por completo, porque muita coisa se originou a partir dele, e o clichê, antes de sê-lo, mostrava-se como uma novidade. Hoje em dia, mais que revisitado, há maneiras de subvertê-lo. Mas ainda assim esta rebeldia é coisa rara, e quando acontece, temos aquela deliciosa sensação de ter presenciado algo nunca antes visto.

No cinema atual, um punhado de cineastas faz isto acontecer. Só que isto é mais comum aos cineastas de drama do que aos de terror, pela menor variedade que estes têm com relação àqueles. As obras de Jordan Peele são exemplos da subversão que o gênero Terror está realizando (a cada minuto assistido de suas obras, é possível notar a constante quebra de expectativa nelas). Só que isto ocorre até certo ponto, e esta limitação, consequentemente, impedem que as suas tensas sátiras com temáticas raciais tenham o devido reconhecimento "além-tema", porque alguns malditos clichês o perseguem, ainda que sutilmente. Mas isto, de modo algum, tira o seu mérito. Contrastante ao trabalho autoral de Peele encontra-se a enxurrada de produtos de terror lançados ultimamente em Hollywood, que esbanjam o que há de mais batido na arte de ser previsível - e uma vez abraçando o óbvio, eles o agarram (vide Winchester, Annabelle, A Freira). No meio destes tipos discrepantes há alguns cineastas, uns poucos, que aproveitam métodos "autorais" e "comerciais" fazendo malabarismos, sem perder a originalidade. Eles, geralmente, buscam revisitar lugares-comuns porque pretendem fazer uma releitura mais pessoal de temas batidos ou para introduzir neles uma novidade estética. Encontrando apenas o lugar-comum, mas lhe inserindo elementos mais imprevisíveis em termos narrativos, esses cineastas procuram opções numa categoria onde o leque é maior: na fotografia, na edição, enfim, na Forma. Todas estas etapas técnicas, unidas, e unidas de uma forma inteligente e criativa, de modo que contribuam para a substância (história, trama, personagens), enriquecem por inteiro um tema batido, prosaico. E um cineasta com tais competências é Ari Aster, que no ano passado, com o seu "terror existencialista" Hereditário, chocou o público positiva e negativamente - mas, independentemente das reações mistas, impressionou. Passado um ano do rebento de sua primeira obra, ele retorna com a segunda: Midsommar, um folk horror tão chocante quanto, só que em um nível mais contido. Com reminiscências claras de O Homem de Palha, ele subverte toda uma atmosfera típica, pintando algo novíssimo numa tela estabelecida por uma premissa clichê.

"Subversão", aliás, não é uma palavra tão adequada para esta situação, porque Midsommar não é bem subversivo no sentido que Kubrick e Cronenberg o foram em suas melhores obras. Na verdade, está mais para um filme que, por se conformar em conter uma premissa das mais típicas, tenta puxar dela ao máximo algo que seja pessoal, atual e, quem sabe, até atemporal, e a partir daquela limitação e desses três estímulos é que surge a sua força, anulando qualquer sensação nossa de desprezo ao presenciar uma história clichê. E, consequentemente, Aster é forte como artista, mas ainda assim um ser humano. Sua intenção nunca foi transformar seu filme num produto de terror propriamente dito (pois ele mesmo afirmou isto em entrevista), mas antes num drama entre um casal em crise com pitadas de folk horror preenchido por aquele antropofagismo tirado do neopaganismo e da cultura popular nórdicas. Antes de lançar o filme, Aster disse ter saído de um relacionamento malsucedido, e sofreu com isso. Sua reação foi criar um filme a partir disso. E criou. O filme tem tudo a ver com a vida do cineasta (e vou explicar o porquê logo mais), mas este detalhe é apenas o seu ponto de partida - daí o caráter pessoal de Midsommar. Outra característica dele é a reciclagem que fez do embate entre "Paganismo x Cristianismo" de O Homem de Palha (1973), pondo-o em seu filme de uma maneira diferente, transformando os seus personagens em sujeitos, a princípio, não céticos, mas simplesmente a-religiosos (isso não fica claro, e nem sequer é citado, porque não há necessidade de evocar esse detalhe), ao contrário do policial inglês bem puritano que protagoniza o longa de Robin Hardy, que se choca ao presenciar o paganismo antropofágico e erótico de uma pequena ilha na Escócia, comandado pelo sinistro Lorde Summerisle. Estes dois líderes, de credos diferentíssimos, elucidavam o cenário social daquela época, na qual a revolução sexual - iniciada na década de 60 - estava derrubando a hegemonia do puritanismo inglês (este que mantia uma longa tradição do conservadorismo moral e político). De modo geral, o filme de 1973 tentava mostrar a difícil coexistência de religiões diferentes e a consistência destas num contexto sociocultural mais desligado de quaisquer credos, porque transformado por uma revolução. Já em Midsommar esta problemática é anulada, e no lugar dela é inserida outra: a força das animistas religiões neopagãs pré-cristãs que, apesar de serem chocantes no tocante à realização de rituais, têm uma visão significativa a respeito da vida, da morte e do sofrimento, e uma visão atraente para a maioria, porque desligadas das tradições greco-romanos. Em outras palavras, não é um filme polemista como O Homem de Palha o foi; é, na verdade (e mais especificamente), sobre uma menina que passa por um momento difícil e que acaba encontrando, na realização de um festival no solstício de verão em Hälsingland, a transformação de sua vida graças aos cultos de uma macabra mas didática religião sueca. Esta menina, que é a protagonista, chama-se Dani, e o luto corresponde ao momento difícil pelo qual esta passa: a perda dos pais e da irmã, junto ao abusivo e, por isso, fracassado relacionamento que tem com o jovem Christian. Paralelo à sua criação, Aster, no entanto, não passou por luto nenhum, porque não perdeu ninguém; apenas, pôs isto para substanciar o drama de Dani, já que se equipara um pouco com a dor de perder alguém fisicamente (equiparado, na verdade, mais pela ideia de perda do que pelo real sentimento da perda de alguém fisicamente). Neste sentido é que Midsommar parece ser subversivo, porque deu tom bastante pessoal (e diria até íntimo) a um tema fadado ao toque impessoal, típico de terror genérico. Da limitação do tema tirou a variedade de abordagens, e disso criou um filme misterioso: na superfície fala de coisas bem polêmicas, nas quais se encontram tradições milenares e valores eternos, e justamente estes valores e estas tradições é que corroboram a mensagem que o cineasta quer nos passar, que combina - numa escala maior - com sua história pessoal: a brevidade da Vida e o caráter transitório de tudo o que há nela são nossos maiores consolos, e o Tempo, nosso maior mestre. Por isso é que Midsommar tende a ser atemporal, pois abraça uma verdade universal; a ser atual, por mostrar o papel destas religiões animistas nas sociedades de hoje; e a ser pessoal, pois é lá no fundo sobre o próprio Ari Aster. E tudo isso talvez represente, de modo mais explicado, a subversão da qual falei, uma subversão "contida" (se é que isso existe) que não choca por uma rebeldia sem causa, mas para enfatizar, com uma clareza quase grotesca, um grito interior de um artista. Afinal, é a obra mais pessoal de Ari Aster, porque biográfica, e este grito é o dele. A causa desse grito histérico vemos em Dani, e quem mais se parece com ela do que o próprio cineasta/roteirista?

Consequentemente, Dani é seu alter ego. Mas ela representa apenas aquele pedaço da vida de Aster, quando da sua crise do fim do relacionamento. E digo isso pelo seguinte: não li uma biografia profunda e completa a seu respeito. O que sei foi com base no que li de entrevistas. Sendo assim, o paralelo entre persona e artista acaba aqui, porque depois do que fora expandido em questões dramáticas, restou apenas Dani - a personagem. Ela representa uma fase de Aster, não a sua vida inteira, e é justamente por isto que há muito mais detalhes de Dani para serem mostrados, porque ela é muito mais do que um mero alter ego.

E Dani é, de fato, mais do que isso. O próprio início de Midsommar já sintetiza a sua significância dramática, opondo-a contra um ambiente hostil, frio - em outras palavras, invernal. A oposição deste ambiente, inclusive, reforça sua caracterização: ela é neurótica, meio obsessiva, e vive sem os pais e a base de remédios (talvez tenha ansiedade); tem problemas com a irmã mais nova, que, sendo bipolar, nos tempos de crise, some da vista de todos; e namora Christian, que é mais um "terapeuta" do que um namorado. Somadas estas características que compõem o que Dani representa, temos um acontecimento crucial que nos insere de cabeça na história e consolida de vez a premissa de Midsommar: sua irmã e seus pais surgem mortos dentro de casa, e se antes disto Christian já estava saturado da dependência que Dani tinha por sua presença, agora é que ficará ainda mais. Passados alguns meses da morte da família de Dani, o filme transita para outra estação, que sucede o Inverno - e assim sugere mudanças posteriores. A dor da perda diminuiu, mas ainda permanece; transformou-se, por sua vez, num trauma, e sempre quando alguém toca no assunto, a pobrezinha tem crise e cai em prantos. Christian segue no relacionamento, só que bastante desgastado. Continua a dedicar-se nos cuidados de sua namorada, ainda que esteja visivelmente cansado e prestes a romper com ela. De repente, uma ideia de viajar para a Suécia brota numa roda de conversa entre os amigos de Chris (Mark, Josh e Pelle). Todos demonstram interesse em ir ao país nórdico, inclusive Chris - aliás, mais do que interesse, os quatro já compraram as passagens. Mas Dani não sabia disso, e quando descobre, chateia-se bem levemente com o namorado por não ter-lhe contado que comprou a passagem; assim, para evitar estresses, a ideia de levá-la à Suécia é cogitada e, em seguida, aprovada, ainda que contra vontade de todos. Os amigos de Chris não vão muito com a cara de Dani, e ela nota esta hostilidade. Mas ainda que esteja num ambiente hostil, e com pessoas que não lhe apreciam como alguém agradável, Dani tem na Suécia a chance de reatar o seu relacionamento, e (melhor ainda) de mudar de vida.

O palco desta mudança é a cidade de Hälsingland, no norte sueco. Pelle, um peculiar amigo de Chris, cujo olhar penetrante beira a uma psicopatia latente, foi quem sugeriu a ida de seus "amigos" para lá, pois é oriundo de uma comuna deste local; "amigos", porque suas intenções são ambíguas, e o local é consequentemente um paraíso tropical, regido por um duplo sagrado/profano, que alimenta a impressão de ambiguidade nossa e dos personagens. E se por um lado as intenções de Pelle são bem esquisitas (ainda que desconhecidas até certo ponto da história), as de Mark, Josh e Chris, por outro, são das mais diversas: Mark, o alívio cômico (ou, se preferirem, o "bobo da corte"), quer pegar garotas suecas; Josh pretende estudar a cultura do povo de Pelle para escrever a sua tese de doutorado; e Chris, tenta reatar a relação com Dani (ou terminar) e encontrar um tema para a sua tese. Suas motivações, ao entrarem em detrimento com o mistério que cerca o filme (isto é, o obstáculo a estas motivações), dão-lhe feição nova, feição de imprevisibilidade, pois parece que em longo prazo elas interferirão no desenvolvimento do próprio mistério que queremos desvendar, e o filme, tomando este rumo, nos faz deduzir acontecimentos distintos dos que sempre ocorrem em obras mais típicas (nestas, as vítimas são geralmente jovens inconsequentes que só querem trepar e se drogar). Em Midsommar, não é bem assim. Os caminhos são um pouco diferentes. Um exemplo: Josh, até um dado momento, é bem intrigante, porque a partir de seu interesse excessivo na comuna de Hälsingland, acaba nos fazendo pensar que é tão suspeito e ambíguo quanto Pelle - mas a urgência de sua tese prova o contrário. E Josh, consequentemente, é um dos que desviam a nossa atenção do que está realmente acontecendo, para que outros elementos se desenvolvam por debaixo dos panos sem que percebamos; daí, quando não é mais necessário como distração, Josh é finalmente descartado com uma pancada na cabeça. E Pelle, junto ao seu povo acolhedor, decide ignorar as máscaras, finalmente revelando quem é de verdade.

Esta revelação surge paralelamente ao desaparecimento gradativo de certos personagens - dentre eles, Mark, que, sendo o alívio cômico, ao desaparecer, torna o clima mais bizarro (e a população de Hälsingland lhe prega uma peça no fim), pois é logo após o seu desaparecimento que o tom do filme muda. E ele é o primeiro que desaparece; depois, é Josh; e enfim, o casal, que não desaparece, mas que fica sobrando para depois se dissipar. Nesta sobra se prepara a cereja do bolo. Começam os preparativos.

Oficialmente, Midsommar começa quando o grupo chega na Suécia. Tudo o que ocorre antes é uma espécie de "Prólogo", pois a "coisa toda" ainda não começou de verdade. Nele se estabelece apenas a premissa - e nada mais. A "coisa" de verdade ocorre lá na Escandinávia, e ocorre de uma maneira interessantíssima, quase fabulesca. Dani chega em Hälsingland, e anseia por alguma mudança em sua vida. Anseia, inclusive, superar toda a desgraça que lhe aconteceu. Mas conviver com pessoas desagradáveis não parece ser uma boa ideia; e conviver com pessoas desconhecidas, tampouco. Todos parecem se adaptar ao paraíso campestre de Hälsingland, menos Dani. Ela, mais do que todos, desconfia da cordialidade do povo de Pelle. Só que finalmente algo acontece: alguém lhe oferece droga, e aquilo meio que a insere naquele ambiente. Ela estranha o efeito do psicotrópico, e passa a ter alucinações. Não deixa de desconfiar dos anfitriões, mas algo nela muda: está em outro ambiente, está diferente, e a causa de seu estranhamento é que o processo de superação da morte de sua família começou. Os anfitriões estão prontos para acolhê-la, basta que ela reconheça o sinal e aprenda a conviver com os malogros da vida. Dani, durante todo o filme, passa por um processo transitório, que inclui uma fase de lamentação sucedida pela fase de resignação. Mas um obstáculo a impede de se tornar alguém diferente: a dependência que tem por Christian, pois parece que precisa amá-lo a qualquer custo (Aster, inclusive, sugere sempre uma intervenção do povo daquela comuna, ao pôr repetidas vezes umas mulheres de branco dançando entre Dani e Christian, querendo mostrar que algo está para brotar entre eles, algo tão forte que os dissipará de vez e para todo o sempre). Num determinado momento, algo como um preview, ou um resumão, surge: "É uma história de amor", responde Pelle ao que um dos turistas pergunta, que tem relação a uns desenhos feitos em retalhos de panos, mostrando situações episódicas com um desfecho agridoce: uma mulher, para ter o homem que ama, enfeitiça-o para ter seu coração. Esta cena é uma das mais poéticas do filme, senão a mais poética, porque causa uma sensação de pena e de tristeza profundas, tamanho desespero da coitada responsável pelo feitiço. Tais sensações vêm à tona porque deduzimos que Dani fará isso devido à cegueira de seu desespero, e assim sentimos pena e tristeza. Mas não, isto não acontece, e sim o contrário. Esta historinha ficcional será uma espécie de armadilha feita para Christian cair. Uma das nativas do povoado, Maja, moça bem nova, fará o feitiço - o seduzirá. Trata-se de uma trama diabólica. Eles tentarão o pobre diabo a copular com a mocinha, e o condenarão por algo que ele nem quis que acontecesse. É uma conspiração, mas por um bem maior. Só que para ter este bem são necessários sacrifícios. Dito isso, os anfitriões (ainda mais Pelle) querem transformar Dani numa rainha, e querem que ela porte-se como tal. No entanto, precisam então fazer algo dificílimo, e aí reside um dos sacrifícios: convencê-la de que não precisa de Christian. Deliberadamente, ela o flagra copulando com Maja, e a visão que tem é das mais traumáticas de sua vida. O que se sucede disso é genial, porque tocante (e os espectadores na sala de cinema entenderam errado, achando que era algum tipo de alívio cômico): as nativas consolam a rainha, gritando junto com ela, compartilhando a dor do coração partido. E uma montagem paralela indica um contraste: do outro lado do campo, os gemidos altíssimos, juntos da libido também altíssima, indicam o pecado grotesco sendo consumado. Acontece paralelamente o que precisava acontecer. Mas o mais interessante é que nada acontece de forma natural, só que segundo os pontos de vistas de Dani e Christian, tudo isto aconteceu a partir de uma providência divina, isto é, a partir de um ato natural, quando na verdade fez tudo parte de uma armação. Eis a trama diabólica, com ares de intervenção divina, pois Dani precisou perder Christian para aprender a viver sem ele e, assim, chegar a um nível superior de superação em sua vida. Mas a mesma "força divina" que a fez mudar, tirou uma das coisas mais preciosas de sua vida com a qual jamais seria capaz de mudar. Nesse sentido, isto não é bem uma trama diabólica, mas a mais pura representação da lógica do sofrimento como o fundamento do aprendizado e do amadurecimento - o clássico "há males que vêm para o bem". Por isso o sorriso final de Dani. Nele, ela definitivamente demonstra que superou todo o sofrimento ao qual se submeteu por tanto tempo, e no templo amarelo, aquele no qual ninguém deve entrar, ficou tudo o que passou (inclusive o imenso urso). A "coisa" de verdade enfim aconteceu.

Ainda neste raciocínio, alguns personagens podem ser entendidos como ideias, como fases a serem superadas, e o próprio Ari Aster dá uma lição de superação com a coisa mais ridícula de seu filme: Mark, o alívio cômico, que vira um bobo da corte torrado. Ele parece superar o que há de pior em sua obra-prima. Mas demora, pois Mark é o elemento que impede que Midsommar seja grandioso. Lá nos arredores do segundo ato, o tráfego da narrativa fica maçante, porque as piadas do garoto com cara de Tintim se tornam incessantes. De repente, eu assustado, pensei: "Ari Aster perdeu a mão? Por que ele não se desfaz desse cara?". Não fui o único que sentiu alívio quando ele sumiu pela primeira vez - tenho certeza. Tanto que o que se sucede após seu sumiço é a cena do suicídio dos anciãos do povoado, uma das mais enigmáticas do filme (e o momento epifânico de Dani) - e Mark não está lá! Ele é responsável por deslocar a unidade do filme, pois tudo deveria se desenvolver em unidade para que o mistério tivesse coesão e força, afinal, uma atmosfera desse tipo criada com piadas não funciona justamente por não ser levada a sério. O que acontece é o contrário. São muitos elementos narrativas se desenvolvendo de forma deslocada, como se cada elemento fosse construir um arco próprio para si, ofuscando o que realmente importa (é preciso agarrar com firmeza o núcleo dessa história para saber exatamente do que ela trata). A falta de unidade dramática tira a força do “todo dramático”. Em consequência, só as partes ficam fortes, e não somam um peso dramático significativo. E a raiz desse problema é justamente o personagem Mark, porque um alívio cômico num ambiente nada cômico. No entanto, Ari Aster faz isto de propósito, pois pretende construir uma transição de tom, partindo de algo cômico a algo trágico (tanto é que ele tira Mark da jogada na cena do suicídio). A intenção de mantê-lo no filme é para entendermos o perigo daquele lugar e o quão ferrados todos ali estão - principalmente Mark - por brincar com coisas sérias (isso é clichê). Agora, o que Aster faz sem querer é falhar nesta abordagem proposital, ao esquecer que não veremos apenas o efeito desta transição tonal, mas também toda a chatice entre essa enorme transição. Pelo menos o filme melhora quando ele é descartado, e sentimos que Aster o superou, transformando-o no bobo da corte da Rainha Dani. O filme volta aos eixos - até o desfecho. Em seguida, nos consola quando entrega aquele sorriso esperado da rainha, quando enfim supera os malogros da vida. E nos consola, por fim, quando transforma a história clichê de “Jovens-Inconsequentes-Embarcando-Para-Um-Lugar-Desconhecido” numa história sobre si mesmo - e é ele mesmo nesta história. Aquele grito de angústia de Dani perto do fim é o grito do próprio cineasta. É o grito de um artista que se arrisca em mergulhar no eterno desconhecido do seu eu para criar arte. E esta arte é o exótico Midsommar, algo que, diferente dos clichês, não é uma constante no cinema, porque é um retrato íntimo e sincero das angústias pelas quais o autor passou - e isto não acontece toda hora.

Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pauline Kael e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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