• Leandro A. de Sousa

Crítica | Parasita (2019)


Direção

Bong Joon-Ho

Roteiro

Bong Joon-ho e Han Jin-won

Elenco

Song Kang-ho, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Choi Woo-shik, Park So-dam, Lee Jung-eun, Chang Hyae-jin, Park Myung-hoon, Jung Ji-so, Jung Hyeon-jun, Park Keun-rok, Jung Yi-seo, Jeong Ik-han, Lee Joo-hyung, Lee Ji-hye, Andreas Fronk, Anna Elisabeth Rihlmann, Park Seo-joon e Yoon Hye-ri

Nome Original

Gisaengchung

Data de Lançamento

07 de Novembro de 2019 (Brasil)

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

CRÍTICA | PARASITA (2019)

Há facilidade por parte de uma população menos favorecida de enxergar suas mazelas, ao passo que se enxerga os privilégios daqueles que estão no topo de uma pirâmide social. Olha-se para o alto com o desejo latente de subir essa escada. No entanto, ela é escura e completamente íngreme, e é lógico que para os que estão no topo não há interesse em iluminar esse caminho e abdicar dos seus privilégios, sempre tendo o cuidado de não olhar para o pé dessa escada; quando o fazem, têm um desejo de manter essas pessoas naquela posição, dando apenas a “vantagem” de que elas os sirva. No cinema, há diversos exemplos de filmes que demonstram muito bem esse abismo social. Desde O Ladrão de Bicicleta até o recente Coringa, esse sempre foi um tema abordado na sétima arte de diversas formas. Em Parasita, Bong Joon-ho vai além, e nos mostra um experimento social que só pode ter saído da cabeça do diretor com um dos cinemas políticos mais sólido da atualidade. Parasita conta a história da família Ki-taek, que vive em um apertado apartamento num subúrbio, provavelmente de Seul – apesar de não ser dito o local exato no qual o filme se passa, temos certeza que se trata da Coréia do Sul. Ao olhar para fora, os membros da família veem o mundo ao qual estão habituados: sujo, pálido, fedido e com um bêbado que vez ou outra vem mijar no pé de sua janela, a qual eles sempre olham de baixo para cima, ação essa que estabelece o conceito de sempre estar abaixo da liberdade. Em sua morada se encontram numa condição apertada e incômoda, tendo que se abaixar até para fazer suas necessidades fisiológicas; precisando “roubar” o wi-fi da vizinha de cima, há uma necessidade quase vital de procurar um novo ponto de conexão no momento em que ela decide colocar senha no serviço. Para sobreviver, eles fazem bicos como dobrar caixas de pizza por alguns trocados. O ponto de virado ocorre no momento que o amigo de Ki-Woo (Woo-shik) vem à sua casa – e repare como nessa cena há uma certa admiração por parte dos pais de Ki para com o seu amigo, que, além de estar bem vestido e expulsar o mendigo mijão da janela da família, ainda leva um elogio da mãe de Ki (Hyae-jin) com esta dizendo que universitários são diferenciados – e traz consigo um artefato alegando que traria fortuna: uma pedra. Após isto eles saem para beber e ele oferece a Ki a oportunidade de dar aulas de inglês a uma moça de uma família rica, Da-hye (Ji-so), enquanto ele viaja para o exterior. E apesar de Ki saber o suficiente de inglês para passar por alguém que tem especialização, ele não tem nenhuma. Então é preciso usar os talentos de sua irmã no Photoshop, para que forjasse um diploma que possibilitasse a aprovação dos novos patrões. Essa malandrice usada por esses personagens ganha contornos mais importantes quando chega o ponto aonde ela está ali para também justificar as condições daquela família, e como cada um possui uma habilidade específica. Eles precisam sobreviver um dia após o outro e acham a oportunidade perfeita quando Ki passa a dar aulas para a filha de um magnata da tecnologia, usando não só o seu charme mas a sua excelente capacidade de atuação para convencer a mãe da moça (Yeo-jeong) de que ele é tão bom quanto o seu antecessor. A trama começa a ganhar contornos “hitchcockianos” quando cada personagem vai entrando na casa de forma súbita enquanto outros vão sendo descartados, começando pela irmã de Ki que se torna a professora de arte do filho mais novo da família. Isto se dá em função da hiperatividade do rapaz, que além de ser inquieto tem um interesse enorme pela cultura indígena norte-americana - essa apropriação da cultura nativa tem a função de ironizar certos papéis da elite em uma sociedade desigual. A malandragem da família Ka-taek se contrapõe à ingenuidade da família Park, que em nenhum momento repara no que realmente está acontecendo. E o fato de a patroa ser ingênua o suficiente para em nenhum momento sequer desconfiar que aquelas pessoas na verdade são uma família de farsantes não é à toa, pois tal fato está ali para ilustrar a intenção de Joon-ho em relatar a invisibilidade social que esses grupos sofrem. Eles não somente não reparam no que está havendo como também há uma impressão de que não há importância – ora, desde que fizessem seu trabalho, o que importa? Aliás, isso fica ainda mais claro no momento em que a antiga governanta volta até a mansão para “buscar” algo que esquecera, pois o fato de viver alguém bem embaixo da casa em um cômodo secreto (e repare na iluminação esverdeada e em como a fotografia muda drasticamente nesse momento, de cores mais avivadas e frescas estamos agora em um covil que lembra alguns momentos de O Hóspedeiro, principalmente a tensão construída nesse momento) sem que eles nunca descubram seja algo improvável para olhos mais atentos como os de Da-song (Hyeon-jun) – mas de certa forma ele descobre. O conflito que há entre as famílias nesta cena só reforça essa sina das classes mais pobres precisarem brigar entre si para conseguir manter o mínimo privilégio que é servir à elite. Sobreviver, que é o que todos ali fazem todos os dias, significa ter que lutar enquanto os poderosos simplesmente ignoram, e quando o percebem é porque de alguma forma aquilo está incomodando. Incômodo este que é trabalhado com excelência quando os roteiristas estabelecem o elemento do odor. O diretor acentua uma característica vital no que diz respeito a essa invisibilidade social que essas pessoas sofrem: por mais que elas sejam substancialmente ignoradas a maior parte do filme, elas são notadas no momento em que causam um incômodo. Isso acontece nos dois casos de demissão, tanto na situação do motorista que fora acusado de fazer sexo dentro do carro do Sr. Park (Sun-kyun) quanto na da governanta que se há uma suspeita de tuberculose. Perceba que em ambos os casos o casal quando se dá por convencido a demiti-los tem o cuidado de inventar uma desculpa, sempre evitando o incômodo de buscar mais evidências para o que realmente aconteceu. Isso poderia indicar por parte do casal alguma empatia ou identificação para com essas pessoas, já que há indícios de que nem sempre eles estiveram em uma situação de privilégio (algo sintomático em diálogos como aquele no qual o Sr. Park diz que pessoas no metrô tem um cheiro diferenciado e sua esposa o responde dizendo que há tempos não anda de metrô), mas na verdade é apenas uma maneira de manter a boa imagem, já que é preciso muitas vezes fazer acreditar que aquelas pessoas de alguma forma são parte da família e que é doloroso tomar uma decisão tão radical – pegue o exemplo do filme Que Horas Ela Volta. Para os Ki-taek aquela vida se torna tão tentadora que os cega, fazendo com que eles se esqueçam o lugar que pertencem e acabam perdendo tudo em uma enchente que parece ser aquela que Travis Bickle premeditou em Taxi Driver. Nessa cena Ki acaba por se agarrar na pedra que ganhara de seu amigo, aquela que representa tudo o que eles conquistaram, mas como um mineral bruto eles não podiam sair do lugar, o que poderiam fazer era apenas almejar uma vida de luxo e fartura, ou pelo menos esperar por ela. Os Park percebem que o fato de ignorar os que estão abaixo tem um preço e quando essa classe se revolta eles perdem tudo o que parece realmente ter importância, mas ainda assim enxergam aquelas pessoas apenas como empecilho. O fantasma que Da-song vira naquela noite era o puro medo de que aquelas pessoas de alguma forma conseguissem subir a escada até o topo. Quando uma delas consegue, as outras percebem a situação humilhante na qual se encontra e também se revoltam, mas para gente assim tudo tem um preço alto demais. No fim tudo estava perdido, a família taek estava de volta ao porão escuro da miséria sendo condenados por querer algo a mais do que um sistema injusto poderia lhes oferecer. Para sair daquele lugar eles precisariam lapidar aquela pedra, movê-la e no fim se livrar dela. Dito isso, é de se pensar como Parasita conversa com seu espectador de forma universal. O filme se passa em uma realidade oriental, onde vemos aspectos da cultura do Ocidente por vezes sendo tratada com deboche por parte daqueles que detém o privilégio de uma boa vida – o final demonstra bem isso. É fácil de se identificar com a realidade de Parasita pois ela trata de algo que vai além de uma cultura específica e toca em temas que a maioria da população conhece bem. Todos temos uma pedra a qual nos agarramos. Cabe a cada um quebrar a corrente que nos prende a ela e subir os degraus ou apenas ficar ao pé da escada olhando para cima. O mérito ainda reside em se livrar da pedra.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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