• Leandro A. de Sousa

Crítica | O Irlandês (2019)


Direção

Martin Scorsese

Roteiro

Steven Zaillian

Elenco

Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Stephen Graham, Ray Romano, Harvey Keitel, Bobby Cannavale, Anna Paquin, Stephanie Kurtzuba, Kathrine Narducci, Welker White, Jesse Plemons, Jack Huston, Domenick Lombardozzi, Paul Herman, Louis Cancelmi, Gary Basaraba, Marin Ireland, Sebastian Maniscalco, Steven Van Zandt, Lucy Gallina, Jonathan Morris, Dascha Polanco, Bo Dietl, Aleksa Palladino, Daniel Jenkins, Jim Norton, Billy Smith e Kevin O'Rourke

Nome Original

The Irishman

Data de Lançamento

14 de Novembro de 2019 (Brasil)

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

CRÍTICA | O IRLANDÊS (2019)

É cada dia mais raro encontrar humanidade de forma tão palpável e legítima no Cinema. Com filmes cada vez mais plastificados e feitos sob medida para agradar, O Irlandês seria uma grata surpresa, pois não era difícil de imaginar esse título como sendo algo tão grandioso devido ao retrospecto de quem estava por trás das câmeras. Scorsese sempre teve essa habilidade de tirar o máximo do ser humano em seus filmes, e vem fazendo isso constantemente nos últimos anos – na verdade o diretor desde sempre fez isso, mas pensemos em filmes como O Lobo de Wall Street e Silêncio, pois estão mais frescos em nossas mentes. Por mais que haja abordagens e temas diferentes (e isso é algo que derruba a falácia de que o diretor só sabe fazer filmes de Máfia), nesses longas Scorsese procura obter o fator humano acima de tudo, algo bem acentuado em seu último projeto, Silêncio, no qual a fé daqueles homens faz com que ambos superem todo o tipo de sofrimento físico e psicológico imposto a eles, sendo uma real provação para com a fé. Em O Lobo de Wall Street, Scorsese nos mostra a sujeira e a canalhice de Jordan Belfort com um toque certeiro de humor negro, mas sempre deixando claro o desvio moral e condenando as práticas do personagem de DiCaprio, e acima de tudo deixa claro que não há arrependimento por parte do protagonista – e muito menos por parte do real Jordan Belfort. Scorsese foi, é, e sempre será um especialista na humanidade e o que faz dela o que é, por isso assistir a um filme dele é uma experiência que vai além do simples entretenimento e se torna uma aula de cinema, mas, acima de tudo, uma aula daquilo que nos torna nós mesmos.

O Irlandês conta a história de Frank Sheeran (De Niro), um homem idoso que vive em uma casa de repouso e tudo o que possui são memórias de tempos de ouro que começam no momento em que ele conhece um homem chamado Russell Bufalino (Pesci), que de certa forma o introduz em um mundo aonde ganhar dinheiro fácil parece ser tentador demais para simplesmente negar. A grande verdade é que Frank parece de certa forma habituado àquele tipo de sujeira (nota-se isso logo na cena em que ele conversa com o advogado interpretado por Ray Romano – aliás, Romano é um dos muitos pontos altos no que diz respeito à atuação). A propósito, essa é uma das cenas que serve para estabelecer o humor cínico que Scorsese trabalha em seus filmes – lembre de O Lobo de Wall Street e até mesmo de Os Bons Companheiros. E diga-se de passagem, é impossível não lembrar de Os Bons Companheiros ao assistir O Irlandês, isso porque o próprio diretor faz questão com que lembremos do filme a todo instante ao empregar uma narrativa que acontece com a narração de um homem que apenas quer contar uma história e espera que alguém ouça, como Ray Liotta o fizera; além da agilidade utilizada por Scorsese ao filmar cenas com câmeras que vão e vem de modo frenético; sem contar, claro, dos planos-sequência que o diretor mais de uma vez utiliza para evocar tensão em cenas que possivelmente haverá mortes. É de se destacar que Scorsese trata tais eventos em seu filme da maneira mais seca e crua o possível - diferentemente de Os Bons Companheiros aonde a cada explosão de Tommy DeVito era perigoso ocorrer uma chacina muita mais passiva quando se fala na composição da cena em si. Aqui temos cenas rápidas e frias que duram apenas alguns segundos e com bem pouco sangue em tela, o que evidência algo sobre a temática do filme que passa longe de ser meramente uma história de Máfia (se é que ele chega a ser tal).

A linguagem de O Irlandês é primorosa; é a técnica scorseseana mais afiada do que nunca, que aqui volta ao seu hábitat natural... ou quase. A grande verdade - reforçando o que foi dito no final do parágrafo anterior - é que O Irlandês passa longe de ser um simples filme de Máfia. Se em Os Bons Companheiros e Casino víamos De Niro e Joe Pesci utilizando dos meios mais sujos e vis para conseguir o que queriam, com uma bela ponta de psicopatia principalmente por parte dos personagens vividos por Pesci, as coisas aqui são um pouco diferentes, a começar pelo personagem que De Niro dá vida. Frank é claramente alguém inclinado a práticas ilícitas como também foi elucidado anteriormente, porém, diferente dos personagens dos filmes citados, há uma âncora aqui que é sua filha, Peggy (Gallina e Paquin). Peggy tem uma função simples no longa, todavia fundamental: ela é a consciência de Frank. A estrutura narrativa do filme gira em torno do conflito familiar apresentado por Frank e sua filha, que tem medo dele e consegue demonstrar isso apenas pelo olhar - um trabalho primoroso de atuação da pequena Lucy Gallina, que consegue demonstrar com sua personagem o medo que tem pelo seu pai apenas em cenas simples como aquela que a mesma está comendo cereal e seu olhar já diz tudo o que precisamos saber. O medo de Peggy não se limita somente a seu pai, mas chega também a Russell, que de certa forma tenta se aproximar da pequena para estabelecer sua amizade com Frank. Aquele mundo sujo, cruel, aonde o que existe é a lei da bala e da pólvora, no qual codinomes passam a ser mais lembrados do que os nomes em si das pessoas, era assustador demais para Peggy, por isso entra em cena alguém que seria sua luz nessa vida miserável que Frank lhe impunha todos os dias.

Jimmy Hoffa (Pacino) é o rosto da política enérgica. Um homem que tem o dom da lábia e que cativa qualquer um que encontra. Não à toa que conseguiu ser o porto seguro não só de Peggy, mas também de Frank. É construída logo de cara uma amizade entre os dois que vai além de um simples trabalho de guarda-costas de Frank, pois ele passa a ser o homem de confiança de Hoffa. Este, por sua vez, vira um pai de verdade para Peggy. Jimmy conseguia passar a imagem de um homem íntegro e dessa forma é lhe dado características únicas para que possamos simpatizar com ele, como o fato de ser viciado em sorvete e outros detalhes mais sutis como o de nunca dormir com a porta completamente fechada. Ao dar vida a Jimmy, Pacino faz um trabalho sublime: Hoffa é um homem egocêntrico e inquieto, e Al Pacino compõe uma atuação que em momento algum parece se acalmar, pousa uma aura hiperativa em seu personagem e segue com ela até o fim. Infelizmente a ruína de um homem acontece quando ele não se dá por vencido. Jimmy nunca admitira seus erros, da mesma forma tudo deveria ser feito como ele queria, contudo, era notório o respeito e o amor que Frank sentia por aquele homem, pois de certa forma era ele a única pessoa naquele meio que conseguia acalmar sua consciência. Scorsese emprega a Hoffa detalhes em sua personalidade que, por mais odiosos que sejam em certos momentos, faz com que inevitavelmente simpatizemos com o personagem e nos preocupemos com o destino dele (isso se deve também a todo o talento de Pacino, claro), por isso sentimos tanto, quando o inevitável acontece. A ruína de Jimmy não poderia ter vindo pelas mãos de nenhum outro que não fosse pelas de Frank. Quando ele descobre o que precisa fazer, De Niro nos demonstra um turbilhão de emoções através de um simples olhar para Russell – é preciso destacar que Pesci emprega uma calma tão severa a seu personagem que sentimos a todo momento que ele está prestes a explodir e cometer uma chacina. A cena na qual Jimmy se vai é como todas as outras do filme: seca. Fria. Scorsese compreende que não pode dar emoção a cenas de morte, pois não cabe tais sentimentos a momentos tão abjetos. O máximo que sentimos é um imenso incômodo com o pragmatismo do diretor além de tristeza, pois Hoffa era alguém que conseguiu nos pegar ao longo da projeção.

Peggy, agora já adulta, já não tem mais nada para acalmá-la. Ela sabia o que havia acontecido. A moça agora só conseguia olhar para o pai e sentir desprezo. Mesmo com poucas falas, vemos esse sentimento de repulsa, e isso é algo que demonstra o talento de Paquin, que aqui se torna uma das personagens femininas mais interessantes já feitas por Scorsese. Aliás, é preciso pontuar a importância das personagens femininas no filme. Cenas como a viagem que eles fazem de carro demonstram a invariável influência que essas figuras possuem sobre homens poderosos. Isso, claro, é comum em filmes desse tipo, mas além de Peggy é preciso citar também sua irmã, que em um diálogo junto ao pai no fim também torna reveladora a completa falta de noção de Frank em relação aos sentimentos que a filha lhe tinha. Ele não compreende que se Peggy agora era alguém que se isolara do mundo - não por medo, pois já não havia mais espaço para esse sentimento, mas por completa indiferença - era por sua culpa. Frank simplesmente não compreendia isso.

Frank também não podia aceitar que toda aquela história havia chegado a um tenebroso fim. Todos se foram. Todos. Mesmo aqueles que ainda continuaram vivos. Frank também estava prestes a ir, mas ele tinha um medo tão profundo disso que decidiu escolher como seria seu destino, comprando um caixão e escolhendo sua sepultura de antemão. Frank nunca fora um homem grato a surpresas, como todo criminoso megalomaníaco ele tinha a necessidade de controlar o mundo ao seu redor. O fim de Frank pode ser sintetizado com a máxima de “Alguém só morre quando é esquecido”. Frank não queria morrer, Jimmy já havia morrido, mas Frank não queria aquele destino para si, por isso ele contava sua história à exaustão, pois assim como Brás Cubas, no fim só restara ele mesmo e a luz no corredor, a única que ainda lhe dava a esperança de alguém vir àquele lugar ouvir sua história. Quando a porta se fechasse, ninguém viria, Frank estaria sozinho e, acima de tudo, esquecido.

Sobre o autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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