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  • Matheus Oliveira

Aftersun: passado e memória

Atualizado: 12 de jan.


 

O filme já era ideia antiga no íntimo de Charlotte Wells. Muito lhe interessava falar sobre a sua delicada relação com o pai, serzinho tão próximo e ao mesmo tempo tão distante de si. Wells só não sabia como proceder, como progredir com a ideia de fazer um longa desse porte, envolvendo um assunto tão emocionalmente denso.


Órfã de pai aos dezesseis anos, em Aftersun Charlotte - ou Sophie - tem onze. No enredo, esta passa com o pai uns dias de férias num hotel na Turquia. Os dois aproveitam as férias tal como qualquer um: banhando-se na piscina, pegando Sol, bebendo algo, matando o tédio com jogos de cartas, etc. E é só isso.


Nunca é "só isso". E tal como nas melhores obras de arte, Aftersun "acontece" nas palavras não ditas e nos gestos mais descontraídos, no ócio e na introspecção: é na atmosfera da "inação" que são vasculhadas as almas de nossos protagonistas. Composto por uma estrutura de coming-of-age aparentemente convencional, Aftersun evolui através do contraste, da ambivalência: enquanto mostra Sophie, rumando à pré-adolescência, se descobrindo e descobrindo tudo ao seu redor, cruamente apresenta em contrapartida seu pai, Calum, aos trinta anos, estagnado, vivendo a lânguida fase adulta, na qual nada mais parece ser novidade.


Calum (Paul Mescal) é um homem triste, embora tente não demonstrar. Tem essa expressão grave no rosto, expressão que tenta esconder com um sorriso forçado e agridoce. É uma pessoa deprimida. Ama a filha, mas não vive a vida dos sonhos. Sentimos a todo momento que ele fará algo terrível consigo próprio, só que a mera presença da filhinha, o maior tesouro de sua vida, o recompõe e contraria nossa intuição. Calum pratica alguma luta - não sabemos qual é. Pode ser qualquer uma - não importa. Importa mesmo é o simbolismo por trás: por acaso não seria a vida a sua eterna luta - aliás, a de todos nós? Seu braço na tipoia talvez resuma a sua condição inteira: ele é um lutador, e mesmo o sendo, está sujeito a se machucar.


Outra história é Sophie, a filhinha, criatura a ser lapidada. E o sendo, não é qualquer coisa, não é um objeto: é um ser humano, ainda amorfo, que terá personalidade, sentimentos - e lembranças (disso falarei mais adiante).


Sophie é interessantíssima. Evoca-nos uma série de reflexões profundas sobre a vida. Eis uma delas: a de que é difícil ser criança. Época ao mesmo tempo boa e maldita, é da infância que herdamos os demônios que tanto nos limita e atormenta na vida adulta: é como se sem saber, tivéssemos passado toda a infância treinando para ser gente responsável e decente enquanto éramos pivetes irresponsáveis e nada decentes - é contraditório, mas é a ordem das coisas. Já começa pelo principal: somos lançados ao mundo sem pedir; e ao nascer, como se já prevíssemos o alvoroço nele reinante, choramos. Caímos nos braços de pessoas estranhas - nossos pais - cuja longa caminhada precede a nossa. Eles nos conhecem. Não o contrário. Nossos pais, criaturas misteriosas, involuntariamente nos transferem seus medos e inseguranças, e sofremos com isso, pois ainda não temos a capacidade de questionar e de discernir toda a bagunça que nos cerca. Crescemos, e envelhecemos, sem saber o que houve, sem saber como fomos lapidados, como nos traumatizamos com certos eventos e como certas lembranças aleatórias de um passado remoto se mantiveram em nossa memória como sendo algo de extrema relevância para a vida. Sophie, a menina que tudo absorve com seu olhar de espanto e de maravilhamento, que nota algo de errado no pai e em si própria mas que não consegue verbalizar nada do que se passa, é a síntese de tudo isso.


Charlotte (ou Sophie), crescida, tornada cineasta, colhe os frutos da época que retratara no filme. Sua câmera é sua caneta, que tem de "escrever" antes que se esvaiam da memória todos os detalhes importantes. Mas, diferentemente da caneta, a câmera faz mais do que prender os detalhes para que não escapem: a câmera recria o momento, ou melhor, faz nascer esses mesmos momentos só que de uma forma reveladora, como se unida à gravação viesse em si colada a Verdade (sim, com "V" maiúsculo). A câmera eterniza aquilo que por essência teria que se despedir para sempre, mas que não se despede de todo por causa da memória. Mas a memória é falha. É seletiva. E o registro da câmera, imparcial, contrapõe a visão seletiva. Ela revela a Verdade pelo registro sincero simplesmente por mostrar tudo e por fazê-lo viés algum. A grande sacada de Aftersun é talvez esta: o cinema como "arqueologia" da memória.


Todo artista, ao conceber sua arte, faz o caminho de volta, isto é, revisita o próprio passado. O objetivo disso é achar no que passou sentido para o que está se passando. E não é diferente com Charlotte Wells: tendo ficado grudado em sua memória o curto momento de férias que passara com o pai, ela quis vasculhar a natureza dessa memória insistente. Fuçara filmagens que fez na época. O que achou? Uma pérola: o tempo manipulado, filmado, mostrando a verdade nua e crua. Quando criança, dava aquelas olhadelas para o pai, sentia nele essa carga pesada, um desânimo crônico que, embora compreendesse, talvez não conseguisse dimensioná-lo. É que tendo onze anos, Charlotte não poderia saber na época o que é ter trinta anos, o que é estar esgotado e não ver nenhuma perspectiva adiante. Sentia no pai um fingimento naqueles seus sorrisos forçados que fazem doer as bochechas, naquela veia pulsando na testa como que segurando um eventual choro e naqueles olhinhos agridoces, vazios, que faltavam pedir socorro. Ao analisar as filmagens, Charlotte enfim sacou, sacou a verdade nua e crua: seu pai, homem depressivo, tão próximo e tão distante de si, estava farto de viver.


Aftersun, mais do que um coming-of-age, é antes um experimento. Não é apenas sobre Sophie. Nem sobre Calum. É mais do que isso. Ao assistir ao filme, ao prestarmos atenção em Sophie, mudamos o foco e notamos algo de misterioso em Calum. E vice-versa. É como se pairasse entre eles algo de imaterial, que os transcende. A chave reside na premissa do filme: é autobiográfico; e o sendo, sabemos para qual caminho ele segue; e se temos ciência disso, tudo o que acontece é o espectro daquilo já ocorrido. Aí é que está: "espectro". Nota-se, por exemplo, em antigas gravações de VHS algo de incomum nas pessoas filmadas: elas parecem espectros. A imagem granulada traz em si mesma uma aura de preciosidade em tudo o que é filmado: evoca profunda nostalgia em quem assiste. É que aquilo filmado, embora eternizado pelo registro, não mais existe. As pessoas ali filmadas, viajantes de outra época, ou mudaram ou morreram. Daí o fascínio - quase um fascínio pelo místico, pelo fantasmagórico. Sophie/Charlotte fascina-se por isso. Aliás, não só por isso. Fascina-a, e choca-a, o que está para além dessa figura espectral. Ela procura algo que una o passado e o presente. Ela, no intuito de resgatar as imagens, as essências perdidas de uma vida remota, imemorial, tenta agarrar algo que o tempo não tenha desmembrado. Busca o elemento que se manteve intacto com o passar dos anos. Que elemento é este? Não se sabe. E é justamente este elemento desconhecido que paira entre Sophie e seu pai. Este é o foco, e tentar registrar essa coisa desconhecida, invisível mas tangível, é o grande experimento.

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