• Matheus Oliveira

Amém, Bresson!

Atualizado: 10 de ago.


 

Robert Bresson, cineasta francês, artista contido que parece viver constantemente em contrição. Seus filmes parecem o sussurro dos antigos monges beneditinos, que rezavam a reza eterna como tentativa de alcançar a graça, a santidade, evitar o pecado, a perdição, fortalecer a fé, transcender.


Bresson é um dos maiorais do Cinema. Sabe exatamente o que quer em seus filmes, porque é possuidor de uma ideia muito clara do que quer fazer. Tem um método. Mas este método é complicado de apreender, de lhe retirar a síntese. É que Bresson é puro paradoxo. Fala, ainda que emendando outros assuntos, dessa questão do corpo e da alma, da incompatibilidade destes dois fenômenos. Este ideário converte em forma, em forma cinematográfica. A forma é contraditória. Comporta o carnal e o espiritual na câmera, pinta dialeticamente na "tela" audiovisual o conflito humano, que é interno e externo.


Contrário a qualquer método de atuação, pois para si a atuação é uma mentira, um artifício, representação falseada da existência, visão tendenciosa desta, Bresson abraça uma espécie de "não-atuação". Rejeita qualquer afetação, artimanha psicológica. É contra a psicologia. Para si, mesmo que a atuação torne nuançada a complexidade humana, ainda assim ela não capta o todo que pretende captar. Pois o homem não é só imanente, é também transcendente. Iluminado, preso num casulo, o homem é simultaneamente um e dois. Reside em dois mundos. Está no de cá vivendo seus dramas terrenos, mas enfrenta no de lá agonias privadas do espírito. O ator bressoniano vive impávido (ou aparenta impavidez) este drama. Seu rosto é translúcido. Translúcido não porque não transmite nada. Muito pelo contrário. O rosto bressoniano, mesmo "fosco", transmite quase tudo. Mas é preciso um esforço para tal proeza, já que o inefável tenta se mostrar à meia-luz, deixando sempre um mistério à espreita. Atuação para Bresson é ser. Nas filmagens, o ator fica exausto de tanto repetir as tomadas. Bresson incessantemente as repete, a fim de atingir o desejado: a não-atuação. Atuação (quer dizer, não-atuação) para ele é o ator repetir mecanicamente as falas, proferi-las até que a repetição mórbida ganhe um sentido em si mesma. O ator bressoniano tem a face fosca e recita as suas falas mecanicamente porque vive preso a algo aparentemente imodificável, acima de si. É como se esse exercício buscasse algum tipo de epifania.


Tal método tem reminiscências no jansenismo de Bresson. O Jansenismo, doutrina religiosa que se desenvolveu no seio da Igreja Católica nos séculos XVII e XVIII, abraça as ideias agostinianas de predestinação. É próximo do calvinismo, principalmente no que se refere às ideias de graça, natureza humana e - novamente - predestinação. A doutrina jansenista vê com pessimismo a natureza humana. Para a doutrina, o homem, através do pecado original, é automaticamente inclinado ao Mal. Não é autor de boas ações, porque corrompido. Nesta condição, o homem vira um joguete de uma luta antagônica: a Concupisciência e a Graça. No entanto, se por ventura o homem se torna autor de boas ações, não é ele o responsável por elas. Autor seria quem lhe concede a graça de cometê-las: o autor seria Deus. Por sua vez, quando peca, é o próprio homem o responsável, porque ausente de graça, porque não-merecedor desta. Neste sentido, Deus escolhe a quem presenteará com Graça e a quem não presenteará. Eis a doutrina da predestinação, que é a do jansenismo.


Com pessimismo o jansenismo vê o homem. Com realismo Bresson vê o homem. Discordância evidente.


Bresson, mesmo simpático ao jansenismo, discorda de quem o considera um pessimista ("Acho que você confunde pessimismo com lucidez", disse o cineasta numa entrevista). Para si, sua visão de mundo é realista. A beleza que brota de seus filmes não é fruto de uma visão amarga da existência, mas sim de uma visão apaixonada desta. O fundamento da existência é um fundamento dialético que visa a graça buscada pela ascese, conquistada pelo sofrimento. Para Bresson, a vida é uma luta constante (ele fora sobrevivente de um campo de concentração). Na vida terrena, uma alma aprisionada arde, é castigada pelos caprichos da carne. O homem sofre porque peca. E a alma paga pela carne. A alma pertence ao celestial e a carne à vida terrena. O homem, portanto, só será feliz se se resignar, se aceitar o que vem para si. O mundo, isto é, a sociedade, nada tem a lhe oferecer. A sociedade o corrompe. Inclusive um dos dramas dos personagens bressonianos diz respeito a esse choque entre o indivíduo e o seu meio. Em suma: o recolhimento, a vida contida, interior, de rezas constantes, de choros calados - isto é que resta ao homem. Daí o fundamento do método bressoniano, daí a "estranha" atuação de um Martin LaSalle (Pickpocket), de um François Letterier (Um Condenado À Morte Escapou), de um Claude Laydu (Diário de um Pároco de Aldeia). Todos estes atores (ou não-atores) vivem um drama interior, quase nunca esboçado externamente. Quando esboçado, o que se vê é êxtase, resultado do acúmulo, do método elíptico da montagem, da repetição das cenas, da monotonia geral, artifício de um cineasta metódico, que mantém o "sagrado imantado na absoluta economia de meios técnicos"*.


Assim como os monges beneditinos, que procuravam na reza constante a Graça no fim da jornada, também Bresson procurava em cada cena preliminar uma cena final que realizasse a graça traduzida em cinema, recompensada pela espera. Os finais dos filmes de Bresson são como um Salve Rainha rezado em voz alta, grave, em detrimento às vozes sussurrantes e insossas que rezam os cinco mistérios. Aliás é em Bresson que a frase de Gerardus van der Leeuw encontra o seu pleno sentido: "Religião e arte são linhas paralelas que se cruzam apenas no infinito e se encontram em Deus".





 

* A citação em aspas é da autoria de Júlio Bressane.

 

Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Amante de Cinema e leitor assíduo. Sonha ingenuamente em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Tem como inspiração para seus escritos o legado de grandes pensadores desta área e de outras. De forma árdua, tenta unificar todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.