• Leandro de Sousa

Crítica | Batman (2022)


Direção

Matt Reeves


Roteiro

Matt Reeves, Peter Craig


Elenco

Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Jeffrey Wright, John Turturro, Peter Sarsgaard, Andy Serkis, Colin Farrell, Alex Ferns, Jayme Lawson, Rupert Penry-Jones, Con O'Neill


Nome Original

The Batman


Data de Lançamento

03 de Março de 2022 (Brasil)

04 de Março de 2022 (EUA)


Nota do Crítico

⭐⭐⭐⭐

 

Crítica | Batman (2022)


Arquétipos podem ser trabalhados de diversas forma. A mesma história quando contada diversas vezes só irá ser desinteressante se quem está por trás do projeto não tiver capacidade de reinventar e apresentar sua visão sobre aquela história. Se Christopher Nolan em seu primeiro filme sobre o Batman resolveu mostrar toda a sua origem até se tornar o justiceiro mascarado de Gotham, Matt Reeves resolve logo no início expor uma verdade dolorosa sobre o Homem Morcego: um herói fadado ao fracasso. O fato é que o autor já deixa claro a obviedade que é o fato de que, diferentemente do seu colega Superman, Batman (Robert Pattinson) não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo ou então ir de um ponto ao outro voando em velocidades sobre-humanas. Ao mesmo tempo, Gotham é uma mãe desnaturada, ela maltrata seus filhos e os joga na sarjeta; uma cidade onde cada beco escuro pode guardar um perigo, seja tal perigo para um cidadão comum ou para um bandido. A mera ideia da presença do herói se torna algo tão assustador que ele não precisa estar em todos os lugares onde há perigo ao mesmo tempo, basta que seu sinal apareça no céu.


Isso não muda o fato dele ser um herói que estará colecionando fracassos. O objetivo da maioria de seus vilões é justamente expor essa verdade aos olhos do mundo. Aqui isto fica a cabo de Charada (Paul Dano), que aos moldes do assassino de Se7en (1997) vai fazendo uma vítima atrás da outra com o objetivo de simbolizar a podridão que ocorre dentro das instituições de Gotham, desde a segurança pública até o poder executivo da cidade, que no caso é representado pelo prefeito, a primeira vítima do vilão.


Uma cidade caindo aos pedaços pela corrupção, um herói que na infância fora traído por esse poder público ao perder seus pais para a violência, nesse ritmo Pattinson confere a Bruce Wayne um olhar melancólico e cansado - é como se cada palavra que o personagem proferisse lhe custasse uma década de vida. Sua vida só lhe é devolvida quando está dentro do traje patrulhando a cidade. E não apenas isso, todos os sentimentos mais profundos são revelados quando o mesmo está com a máscara cobrindo o rosto, até mesmo a paixão que sente por Selina Kyle (Zoë Kravitz) na primeira vez que ele a vê fica notório. Se escondendo atrás de uma máscara, Bruce pode também se esconder do que considera o fracasso por não ter salvo seus pais. O personagem sai à rua com a alcunha de vingança, buscando sempre, de alguma forma, honrar o legado deles.

Bruce tem seu pai como alguém com a imagem intocável. É interessante perceber como a imagem de Thomas Wayne, diferente da apresentada em Batman Begins (2006) e até mesmo na versão de Snyder, é de alguém cuja moral pode ser testada. Sempre que Thomas Wayne é citado isto fica jogado no ar. Por exemplo: quando Bruce encontra o mafioso Falcone (John Turturro) e este lhe diz que seu pai uma vez salvara sua vida operando Falcone dentro de sua própria residência. Demonstrar que seu pai não era ninguém acima de qualquer suspeita é um método que o próprio diretor encontra para acentuar em Bruce seu sentimento de fracasso. Através disso ele usa Charada como um agente do caos interno de Batman.


Chega um momento no qual o protagonista precisa compreender o real motivo de vestir a máscara. Todos os dias luta batalhas que sabe que perderá. A imagem de seus pais era a única coisa que lhe permitia persistir em uma cidade internamente destruída. Quando o herói percebe que precisa continuar, pois, apesar de tudo, aquele era um ponto de partida que seus pais encontraram para tornar o mundo um lugar melhor.


No final do dia, Gotham novamente estará em ruinas, e Batman estará lá para juntar os pedaços. Pois assim como para qualquer cidadão, aquele era o seu lar. Uma mãe desnaturada, mas ainda assim sua mãe.