Breaking Bad: A derrocada de Walter White

Atualizado: Nov 22



Walter Hartwell White: homem bigodudo com visual que lembra o de Ned Flanders. Ele está sério. O cenho carregado. Ele dirige a caminho de casa - é seu aniversário. Em sua casa uma festa surpresa o espera, mas ele nem desconfia disso. Aliás, pensa em qualquer coisa, menos em festa ou coisa do tipo. Horas atrás, na aula, ao explicar que Química é transformação, um aluno abusado o irritara: enquanto empolgadamente lecionava, o rapazote no fundo da sala conversava com uma garota. Walter interrompe a aula para pedir que o rapazote volte ao seu lugar. Ele volta. O outro então retoma a aula. Mas a aula empaca de novo. Ainda é o rapazote. Este de pirraça volta ao lugar; mas o faz arrastando a cadeira pelo chão. O olhar de Walter para o rapazote é fulminante: quer lhe dizer os piores palavrões. Mas não diz. Afinal, o rapazote é só um aluno. De regresso ao lar após incontáveis humilhações, pelas ruas pacatas e bem apessoadas de Albuquerque, Walter dirige com a cara emburrada. No porta-luvas, pega algo. Estende a mão até este para fechá-lo, mas não consegue. Estende mais uma vez para fechar - não consegue. Mais uma vez - e nada. Era para ser algo irrelevante. E até é. Uma banalidade como esta geralmente é deixada de lado. Uma pessoa normal não liga para isso; ninguém põe neste tipo de coisa importância capital, pois é só um porta-luvas. Apenas Walter White, pois nas situações mais banais como esta tem de mostrar quem manda. Tal insistência para fechar o porta-luvas, como se verá, resume o personagem.


Vince Gilligan, a mente por trás de Breaking Bad, antes de conceber a ideia geral da série, estava desesperado. Homem em plena crise de meia-idade (tal como Walt), Gilligan queria fazer algo significativo. Em conversa com um colega, jocosamente comentara a este que desistiria do trabalho para andar por aí num trailer produzindo metanfetamina. A brincadeira "colou". Foi deixando de ser especulação para tornar-se realidade (a produção da série, obviamente). Começara daí todo um planejamento acerca da estrutura geral da série, do arco de Walter White, etc. Gilligan, nesse ínterim, dera várias vezes com a cara na porta. Nenhuma produtora estava aceitando uma série tratando de um assunto de tamanha gravidade. Tentou, tentou... até que conseguiu. A AMC aceitara Breaking Bad. Nascia então uma obra-prima.


Um dos planos mais expressivos da série é o de apresentação de Hank Schrader, cunhado de Walter White. O plano ocorre na já comentada festa surpresa de Walt. Após o susto deste e de seu visível desconforto por ser surpreendido em sua própria casa, partimos para a sala de estar, comôdo no qual Hank se encontra. Uma pistola ameaçadora preenche o quadro: Bam! Esta é empunhada por Hank, que faz toda uma explanação a respeito do trabuco a inúmeras pessoas à sua volta na sala (inclusos aí estão Stevie Gomez, o Gomie, seu parceiro de trabalho; e Walter Jr., filho do aniversariante). Notam-se aí um brilho e um objeto ofuscado pelo brilho. Este é Hank e o objeto ofuscado, Walt. Todos são entretidos com o papo gozado de Hank. Walter Jr., mais ainda. Aliás, este encanta-se é pela pistola. O tio o deixa empunhá-la. Walt, à meia-distância, observa a dinâmica ali na sala. Chama-lhe a atenção a pistola na mão do filho. Perigo. Ele vai até lá e o adverte a não segurar a arma. Depois, Walter Jr., de mãos vazias, se aquieta. Hank pede ao cunhado que este segure a pistola por uns instantes. Walt a segura - com mau-jeito, mas segura. Sua expressão é de prazer (mas um prazer contido), assim como aliás o é para muitas pessoas que seguram uma pistola, sentindo toda essa brutalidade dela típica. Todo “quadradão” e cerebral que é esse Mr. Chips (aliás, nas palavras do cunhado, "o maior cérebro de Albuquerque"), o trabuco em suas mãos lhe dá no entanto certa imponência, ainda que todo o seu aspecto cafona à la Ned Flanders contradiga a conotação outlaw que emana da arma. Mas as cartas estão aí. A cena, isto é, o contexto da cena, mais especificamente o plano de apresentação de Hank a que me referi no início do parágrafo parece transferir intimidação ao espectador, ao mesmo tempo que já intui para nós uma trama paralela que envolverá o próprio Hank e seu cunhado, aliás com estes dois ecoando respectivamente Porfiry Petrovich e Rodion Raskólnikov (Crime e Castigo).


Há muitas pessoas na casa de Walt (inclusive sua cunhada, Marie, uma cleptomaníaca para lá de curiosa, que, aliás, e de modo bem sutil, servirá de analogia a certo traço de personalidade que Walt adotará moderadamente na 3ª temporada e que nas duas seguintes o levará ao paroxismo: o perfeccionismo). Nota-se da sua parte mistura de surpresa e desagrado. Para piorar, o cunhado debochado o insulta em sua própria casa, faltando pouco para lhe chamar de bundão (mas não o faz, pois afinal respeita o cunhado - e se brinca, é porque o considera uma baita pessoa). Mas mesmo sabendo disso, tal comportamento de Hank é para si humilhante: eis aí um homem complexado e cheio de afetações, possuído por acessos de cóleras que, no entanto, os internaliza em vez de pô-los para fora. Eis aí esse Walter White, que tem todas as características de alguém que é capaz de tudo por não se fazer ser respeitado da forma que acha ser merecedor.


E o que se nota logo de cara em Walt é justamente esta obsessão em querer ser alguém que seja não apenas digno, mas também respeitado. Ele pretende ser - na falta de um termo melhor - o "brabão".


Se bem notaram, no final do parágrafo anterior ao de cima eu escrevi: esse Walter White. Não o Walter, mas sim esse Walter. Isto foi proposital. E o foi com o intuito de frisar um detalhe importante do protagonista: ele tem um duplo. O duplo, cujo nome é em muitos sentidos simbólico, chama-se Heisenberg (sim, como o físico alemão). A manifestação de Heisenberg vai de encontro às ações afetadas de Walter em querer se engrandecer. Tal manifestação é como uma anunciação da chegada de um "ente demoníaco" ao mundo físico, de um "anticristo", e tem certo ar apocalíptico (vide o avião que cai no fim da 2ª temporada e a discussão filosófica em The Fly). Aquele ente demoníaco que chega é Heisenberg, isto é, uma espécie de hóspede. O hospedeiro: ninguém menos do que Walt.

Mas a hospedagem é gradual. Primeiro é latente: estranhamos uma coisa aqui e ali em Walt. Mas nada se firma como certo. A "infecção" se agrava, torna-se mais evidente adiante, com incidentes que se intensificam num crescendo: o "incidente Krazy-8", o "incidente Jane", dois incidentes do fim da 4ª temporada e o da prisão na 5ª - todos esses e muitos outros enfim oficializam aquela hospedagem.


Vou explicar.

De interna inicialmente, de tão forte que se manifesta, a hospedagem, se não bastasse, exterioriza-se: mescla-se a partir de certo momento à aparência de Walt. Este passa a ter um visual "diabólico", soturno. Sua barba muda, fica mais cheia e escura (assemelha-se à barba de Robert DeNiro em Angel Heart); suas sobrancelhas arqueiam-se; e as orelhas, pela cabeça pelada, afiguram-se mais pontudas do que o normal. Mais: combina ao visual de Walt - e o complementa - o seu jeito cada vez mais mesquinho e ressentido. Mais ainda: para delimitar um ponto de largada e um de chegada, existem as evidências da primeira manifestação de Heisenberg e a sua invocação definitiva. O ponto de largada: brota na 1ª temporada. Numa de suas aulas, Walt reclama de uma voz o chamando - e a reclamação é soturna. A voz pertence a Heisenberg. O de chegada: Crawd Space, penúltimo episódio da eletrizante 4ª temporada. No desfecho do episódio, a entidade é de vez expelida naquela gargalhada satânica de Walt, e a câmera (que representaria o ponto de vista de Heisenberg) vai subindo como se de cima visse o casulo do qual acabara de sair.


Mas Walter não é um homem de todo ruim. Veem-se nele lampejos de humanidade. Aliás, mais que lampejos – ele é um cara humano; e o sendo, pertence ao tipo de gente que foge desses julgamentos simplistas. "Ah, ele é simplesmente mau", alguns dizem. Não... Não é assim. Pois, ao mesmo tempo em que está tramando as piores coisas, passa-se por sua cabeça, nem que por meros segundos, a alternativa de não tramá-las. E a mera consciência em não fazê-lo já é em si um detalhe que o defende. Faz algo, mas sua mente diz: “não faça”. Ele morre por dentro, e renasce. Renasce não porque é um demônio, um cara sem consciência. Não. Renasce porque é humano. Às piores ações, acha as justificativas mais sujas. Mas ele se segura – e muito. Na altura a que chegará, precisará fazer o que faz. Vive prisioneiro de suas próprias ações. Se não as realiza, é esmagado. A roda, que gira com ou sem ele, gira ferozmente. E ele não tem escolha, pois precisa ficar tonto nessa roda incessante. Une-se enfim ao necessário o conveniente: como está lá no alto, e tem pose de figurão, é conveniente que aja como um maioral. Quis sempre agir assim, mas não podia. Agora que pode, aproveita-se do posto.

Não é de todo ruim – isso é certo. Mas ainda assim é um ser defeituoso. Embora seja humano, Walt é um cara detestável, e ninguém gostaria de tê-lo por perto. Ele manipula as pessoas e situações a seu favor, e que se danem todos. É um homem de uma inteligência descomunal; é dotado de um carisma que a qualquer um encanta; é (de certo modo) charmoso e leva jeito com as palavras. Noutras palavras: tem lábia. Mas tais características fabricam justamente o sociopata perfeito – o que não significa que ele seja totalmente mau. Na vida comum é o dócil Walter White; na do crime, o prepotente e cruel Heisenberg.


Uma calça voa. Em seguida a série começa. Deparamo-nos com uma sequência caótica na qual Walter, só de cueca e máscara, dirige um trailer. Dentro do veículo, apresenta-se uma confusão dos diabos – e será então preciso assistir aos minutos seguintes para entender o que ocorre, pois conta-se de forma pregressa o desenrolar do rebuliço. Fazem companhia a Walt Jesse Pinkman, Crazy-8 e Emílio Koyama. A situação geral, isto é, o estado interno do veículo, parece traduzir toda a jornada desastrosa do professor de Química ao longo das cinco temporadas, jornada esta cujo ponto crítico será alcançado no comovente Ozymandias. Conduzindo um trambolho barulhento no meio do nada, com dois convalescentes detrás de si e ao seu lado o seu pupilo Pinkman, desmaiado, é assim que começa a aventura de Walt.

A primeira temporada tem apenas sete episódios. Ficou curta assim por conta de uma greve de roteiristas que estourara à época de seu desenvolvimento. A temporada é enxuta – e é boa assim mesmo. Temos o boom logo no início dela (o incidente do trailer), e os minutos seguintes, como falei, nos antecipam a ação. Walter White, graças ao cunhado, este bronco cujo humor ácido o subestima (não por mal), se interessa pelo mundo das drogas: toda a magia, ou melhor, toda a química por trás do processo o "excita". Essa nova paixão, uma espécie de amante que encabula Skyler, o transforma. Hank Schrader, agente da DEA, procura por traficantes e afins; enche-lhe os olhos tanto o império de metanfetamina que tão rapidamente se consolida debaixo de seu nariz quanto a "celebridade" precoce de nome Heisenberg, a pedra-angular desse império, esse grande cérebro que produz a “meta” (em inglês "meth", abreviação aliás simbólica). Estabelece-se aí aquela trama paralela, o jogo de gato e rato - um Porfiry à procura do seu Raskolnikov.

Tempos depois, temos outro boom. Este é maior. Reside no episódio em que Walter, já careca feito um skinhead (após sua célebre fala: "this is not meth") explode o escritório do pitbull de nome Tuco Salamanca. Ali, descobrimos, Walter raspara a cabeça. É o câncer, já revelado no piloto. A doença chegou - ou melhor: o estopim da série. A doença, como é evidente, moverá o homem; lhe dará o gás, já que a contagem é regressiva: dias contados, aventura redobrada. Walt, homem de meia-idade, enfim fará algo de significativo na vida. Eis a chave para o que falta em sua vida; eis a desculpa para ser arrogante e ser ainda melhor no que já é mestre. É que como malograra na Grey Matters, ressente-se disso. Desconforta-o a presença de Gretchen e Elliot. Aliás, mais do que isso: humilha-o (nesse sentido, aquele "fuck you" proferido por Walt e endereçado a Gretchen é para si um descarrego). O romeno de sobrancelhas grossas, Bogdan, o enoja - demite-se do seu lava-jato de um modo não muito lisonjeiro. As aulas, no entanto, continuam – isto é, a sobra daquilo a que chamamos “aparência”. Ali pode “ensinar” os jovens, pode ser altivo para compensar o que não foi na Grey Matters. Aliás, seu emprego como professor não condiz com seu currículo impecável. Podia ser algo bem mais grandioso, e sê-lo na esfera da legalidade. Mas não. Em vez disso, encosta-se no magistério. Sim, ele precisava fixar-se em algum lugar, já que se casou e virou pai. Mas nota-se, ainda assim, certa pose sua como professor. Ele leciona e fala com a empolgação de quem ama aquilo sobre o que trata. Os alunos se interessam pelo que ele fala, pois Walter conduz a aula como um maestro. Mas existe algo de errado: à medida que fala, encanta-se não apenas com o que trata na fala, mas com as pompas de sua própria fala. Os floreios o envaidecem, pois ama ser inteligente. Ele se agiganta com isso. Sabe que é inteligente, que é genial, este Walt Whitman da Química. Daí sua cólera quando aquele rapazote abusado lhe interrompe os “versos". Estão aí definidos os princípios da transformação, o prelúdio da química.

Encerra-se a primeira temporada com um problema: Heisenberg produz metanfetamina, mas a produz para alguém. Heisenberg é mero cozinheiro, mero empregado. Não está no topo – ainda. Terá de lidar com um pitbull fora da coleira. Esta fera é Tuco, que mata a socos e chutes o seu parceiro só para dar um exemplo: que ninguém o desacate, do contrário terá a morte. Mas Walter tem um passe com este homem: cria o produto que o faz lucrar, que o faz ser o nº 1 no mercado. Não morrerá por isso. Jesse, porém, não tem esse passe. O cachorro louco implica com ele. Walter, uma espécie de mediador, terá de morder e assoprar, assim como sempre o fará. Protegerá o pupilo para tê-lo por perto – ora por fins vantajosos ora por sincera preocupação. “Eu preciso dele”, diz sempre. Tuco vê que Walt é um homem de família. Respeita-o por isso, pois Tuco também o é. Daí se intui a futura trama dos Salamanca.


Numa casinha no meio do nada, são reféns do pitbull Walter e Jesse. Nessa casinha surge-nos Hector, um velho numa cadeira de rodas, senil e prestes a babar – bem esculhambado, o coitado. Tem carinha de morto, e a barba por fazer. Esboça poucas expressões. Os olhos, a boca mole e as mãos mexem-se. Os olhos observam o ambiente, como um par de câmeras sorrateiras. É que rato velho que é, e mesmo paralisado, o velho ainda assim nota tudo – bobo, só mesmo de rosto. A boca murcha balbucia. Balança e falta desembuchar as palavras presas. Quer denunciar tudo, sabotar as tramoias dos reféns, que se garantem na sua debilidade. As mãos enfim mexem-se no momento certo. O rosto todo se deforma, os olhos se esbugalham, tentando dizer o que a debilidade o impede de dizer. As mãos movem-se. Estas balançam um sino medonho. A sequência inteira, aliás, prepara o som do sino como um elemento-chave. É ele o motor da tensão: sempre que toca, o sino frustra Walter e Jesse, os faz engolir seco (e a nós também). Tuco fica cabreiro com o comportamento de ambos naquele dia. Não anda confiando nos reféns. Arma então com o tio um esquema: uma batida no sino, os reféns são confiáveis; duas batidas, não são. O velho, safado que é, toca duas vezes para ferrar com os reféns. Tuco, drogado e histérico, e truculento que é, decide fazer o que já queria fazer: matar Jesse. Walter, no entanto, e como sempre, morde e assopra. Com um fuzil apontado para a cabeça de Jesse, basta um dedo no gatilho para matá-lo. Mas isto não acontece. Walter e seu pupilo, combinando-se por sinais, ludibriam o pitbull. Com golpes para lá e para cá, sujando-se todos os três na areia do que parece ser o solo fronteiriço dos Estados Unidos com o México, deixam para morrer o colérico Tuco Salamanca. Contudo, ainda não será ali pelo chão o seu fim. Tem mais. Seu fim, o tem num embate à la velho-oeste com Hank Schrader. Este atira mais rápido. Fim para o Tuco, mas não para os Salamanca. A confusão só começou.

Ora, por que um sino? E quem é esse velho tão esquivo? Por que essa confusão no meio do deserto? Afinal, que é isso tudo? São tais perguntas que fazemos a nós mesmos a esta altura da série, e elas são respondidas com respostas que de longe superam nossas expectativas. O sino é um elemento descarado, de tão interessante que é: de mero elemento situacional, evolui, maximiza-se a partir do momento em que se torna a celebridade da cena-ápice da série (assistir o episódio Face Off). O velho debilitado - rima do Walter Jr. - representa uma debilidade já inerente no próprio Walter White, um fatalismo, uma podridão, como se dissesse: ser malandro à custa dos outros não compensa, uma vez que a alma, com essas malandragens, vai se embolorando - e Walt envereda-se rumo ao puro bolor. O deserto enfim é algo que remete, por exemplo, ao filme Sangue Negro: Daniel Plainview, que no deserto nada encontra, nele de antemão vislumbra tudo – este “tudo” é um império em potencial. Também assim se afigura o deserto em Breaking Bad. Nele, em meio à sua aridez, mata-se e morre em nome de dinheiro e de poder. Mas Plainview é outro, não é Walter. Tampouco o é Heisenberg. O professor de Química acabara de adentrar um terreno maior que si próprio, metendo-se numa maracutaia cheia de gente barra pesada. Ele é esperto, mas só está começando. Aliás, não é modesto. Subestima seus inimigos, verdadeiros pugilistas. Estes encontram-se num ringue, posicionados. De um lado temos alguns Salamancas (os gêmeos medonhos, sobrinhos de Hector). Do outro, um baixinho de óculos e de porte ligeiramente atlético, cujo olhar calmo e voz branda supõem mesmo que ele mexe com frangos. Gustavo Fring é seu nome. Este, sim, é Daniel Plainview.


Gustavo Fring, o "Gus", é aquele a quem atribuímos a guinada definitiva da série. Referenciado pela primeira vez pelo advogado Saul Goodman como o "cara que é o conhecido de outro cara", Gus veste-se daí em diante com uma roupagem imponente, de gente intocável, pois é o tipo certo que Walt anda procurando para ser distribuidor de metanfetamina. Mas ele é apenas citado, não apresentado em pessoa. Após tomar ciência do nome do figurão, Walt, numa das franquias dos Pollos Hermanos, desejoso de conhecer esse misterioso sujeito (que para si é alguém cuja imponência transparece também externamente), e sentado em sua mesa enquanto fita a todos para descobrir quem seria o famigerado Gus, dá no entanto pouca atenção ao homem simples detrás do balcão dando instruções aos empregados, mas que é na verdade o "cão" em pessoa, isto é, Gus Fring.


"Eu não acho que somos parecidos, Sr. White. Você tem pobreza de julgamento e não é um homem cauteloso", diz Gus Fring na sua típica voz comedida que denota impassibilidade. Esta declaração, proferida no momento seguinte ao que Walt o reconhece como sendo o Gus, revela o abismo que existe entre essas forças antagônicas. Revela, porque daí se extrai um fato: Gus é um Walter melhorado, sem os remendos dos quais este é feito. Pois Gus é um homem melhor, e Walt não suporta este fato. A partir do momento em que surge Gus, este se afigura a Walt como um obstáculo a ser superado, um homem tão calculista quanto si próprio e que por sê-lo se torna uma ameaça sujeita a desbancá-lo, a esterilizar a força oriunda de seu ego e a neutralizar a sua ambição, ambição esta que é fruto de sua gradativa perda de escrúpulos.


Escrúpulos, contudo, Gus também não os têm. Aliás, a diferença entre este e Walt não reside nesta questão de ser inescrupuloso. Nada disso. Tanto que nem sequer titubeia quando precisa matar Victor com um estilete na frente de seus cozinheiros e de seu capanga Mike para provar-lhes o poder que possui (ecos do ato violento de Tuco no fim da 1ª temporada). Na verdade, a diferença entre Gus e Walt reside nisso a que chamamos "princípio" (sim, "princípio", pois mesmo com essa palavra não é tão adequado relacionar certas atitudes minimamente admiráveis de Gus). É que em contrapartida a Walt, que nutre certa ânsia estéril para se autoafirmar e que a partir de tal esforço canaliza toda a sua fúria e altivez internas em ser não apenas o mestre da metanfetamina mas também para se manter nas aparências como um homem que é dotado de uma bravura inexistente, bravura esta que é só blefe (aliás, lembremos, a primeira investida deste contra seu cunhado é numa partida de pôquer) e que justamente por conta disso é que é capaz de tudo - Gus, ao contrário, é o que é por um esforço que fizera por muitos anos, com uma finalidade muito bem centrada que não se resumiu necessariamente a demonstrar aos outros que possuía "testosterona". Em termos simples, é possível dizer que enquanto Walt assenta a sua hegemonia sob o solo fofo e instável que é o seu ego, ego este que impõe cada vez mais peso sobre aquele solo já frágil, fadado a ceder; Gus, por sua vez, assenta o seu império sob o solo firme da vendetta, do acerto de contas, já que uma vez consumada a vingança, nada mais há que se provar.


Dá para resumir Breaking Bad à seguinte tese: é uma série sobre homens carecas (referência à quimioterapia ou a algo mais?) que gostam de agir como machões, cujas esposas servem basicamente para lhes inflar o ego, com o intuito de assegurar-lhes suas frágeis masculinidades. Tal tese é talvez provada pelo maior desses machões carecas: Hank Schrader. Tido como um cara que é destemido, ele é enviado a El Paso (zona fronteiriça) para tratar por lá de alguns pepinos. Ele aceita a missão, pois acha que será fácil. Estando lá, depara-se com colegas que falam espanhol, língua que lhe causa certa repulsa. Um de seus novos colegas, ao referir-se a uma estátua de um santo que seria o padroeiro dos traficantes mexicanos, fala a Hank que este "deve conhecer seus inimigos", isto é, que deve sondá-los, conhecê-los melhor que a si mesmo. Isto é algo que Hank não faz, pois acima de qualquer respeito pelos inimigos, alimenta por eles o mais profundo desprezo, desprezo este que lhe cega o juízo. Esse desprezo o pegará de jeito. Tortuga (Danny Trejo, de Machete), um traficante mexicano que é informante da DEA, seria tal como uma apresentação desse mundo hostil fronteiriço para o agente Schrader e para nós espectadores. (O próprio Tortuga, homem de rosto bruto e esburacado, de fala empolada e grossa, jeito jocoso, é a própria caricatura que Hank faz do latino). Numa operação no meio do nada, Hank depara-se com a cena horrenda: a cabeça de Tortuga grudada no casco de uma tartaruga. É uma mensagem. Em seguida, apavora-se de vez: essa mesma cabeça é explodida, e a explosão deixa morto metade do batalhão que lhe trouxera para o meio do nada. Hank, a partir dessa experiência, conhece o verdadeiro ambiente da selvageria que não conhecia. Sofre o revés.


É interessante que esse ambiente seja apresentado pelo prisma de Hank (espécie de personagem intermediário), pois uma vez apresentado, deduzimos então que nesse mesmo ambiente já está envolvido até o pescoço Gus Fring (e que corre o mesmo risco de Tortuga, pois apesar de não ser informante faz jogo duplo) e que estará em breve também envolvido o professor - quer dizer, Walt.


Sua profissão aliás é simbólica. Pois, num momento professor de química no colégio, noutro o será nas ruas e nos laboratórios. Sua sorte é justamente sua especialidade: a Química. Ele mete-se num ambiente que é movido pela Química, mas a última coisa de que nele se fala é dela. E isso é vantajoso. Walt adentra esse ambiente para pregar o "Evangelho da Química" e, a partir deste livro sagrado, ter o poder por ele exigido. Cresce-lhe os olhos este mundo invisível, do "divino transcendente", que por todos é ignorado, mas que faz toda diferença uma vez que a ele é prestada a devida atenção. Walt é o "sacerdote" que tira a cegueira desses "hereges".


A todas as pessoas empolgadas por algum assunto, é comum que se demonstre uma espécie de êxtase ao discorrer a seu respeito. Walt é assim. Quase não existem pessoas que falem a mesma “língua” que a sua, e isto o frustra. Só ouve os leigos falarem do que não sabem. Até mesmo quando Jesse Pinkman, seu pupilo, fala de Química consigo, ele não dá tanta trela ao rapaz. Em certos momentos demonstra até desdém por ele. Num deles, por exemplo, em que Jesse se refere ao processo químico como "arte", este parecera a Walt ter falado uma asneira atroz. Mas isto é pose, pois Jesse é tão bom quanto o mestre. E este, por sua vez, invejoso e receoso de ter o trono tomado de si, nunca admite o doloroso fato. É que Walter não suporta que um rapaz como Jesse seja um prodígio (vale recordar: é Jesse o cozinheiro do laboratório que é apreendido por Hank no episódio-piloto, cujos parceiros de "cozinha" eram Emilio Koyama e Krazy-8), e então, para desviar-se do fato que é negado, resta-lhe desdenhar e diminuir o garoto, garoto este que inclusive atinge altíssima pureza na metanfetamina na 4ª temporada e que com isso supera o seu professor. Desta relação entre Jesse e Walt convém enfim introduzir um personagem crucial em Breaking Bad: Gale Boetticher.

Se Gus não aceitara a comparação que Walt fez consigo, é porque sabia profundamente a estirpe do homem que contrataria como o seu cozinheiro: um narcisista de carteirinha; descuidado e olho grande. Mesmo receoso, o contratou. E depois que o contratou, receou-se mais ainda. É que a promessa de que Jesse (embora um "viciado") seria mero lacaio de Walt, não correndo assim risco de ser um empecilho nas suas maquinações, parcialmente o tranquilizara. Nesse sentido, aqui vigora o mesmo critério que vigorara nos tempos de Tuco: ruim com Walt, pior seria sem ele. Eis de novo a questão do passe: Walt é o melhor da região, é ele o responsável por entregar a "meta" mais pura; e uma vez sendo o melhor, urge protegê-lo. Mas o narcisismo do cozinheiro o sabota, pois não quer ser apenas cozinheiro - pretende é tomar o poder. Gus, assim como o pitbull, torna-se cada vez mais cabreiro diante de tamanha audácia. Mas, diferentemente deste, Gus é cauteloso e atinge o ponto certo do ego desse "rebelde", só em último caso recorrendo à violência. Jamais um blefador, porque possuidor das melhores cartas, Gus passa a enxergar com bons olhos aquele lacaio viciado que seria a segunda carta: Jesse Pinkman, uma boa pessoa, um cordeirinho em quem se pode confiar; mais ainda: um cozinheiro tão bom quanto aquele que não aceita ser um dos melhores, mas o melhor. A primeira carta, a que a longo prazo intui a derrocada de Walter White (vide a dedicatória das Folhas de Relva, que por imenso descuido de Walt é lida por Hank), a curto prazo malogra. Gale é esta carta. Nerd, químico de formação e contratado por Gus Fring para ser o companheiro de Walt, este personagem de olhar deslumbrado que falta perder as palavras ao deparar-se com a genialidade do grande cozinheiro seria como a personificação do ego deste, ou melhor, a representação do patético aspecto de um narcisista quando visto de fora. Gale enche a bola de Walt. E este adora. Até o poeta Walt Whitman (um dos W.W.), "invocado" numa das cenas mais sublimes da série, entra na história, quando os dois cozinheiros no laboratório às escuras deleitam-se com um bom vinho e com os versos whitmanianos que se referem a um certo "astrônomo erudito". Para além do contexto literal da cena, reside nas entrelinhas o seu significado metafórico: é o encontro de Walt consigo mesmo, espécie de Narciso olhando o seu próprio reflexo no espelho, mas admirando não sua beleza, antes sua genialidade.


Quem assistiu à série sabe o fim de Gale. Mesmo assim, não custa relembrar: metem-lhe uma bala na cabeça. Seu carrasco é Jesse, que ao cometer o ato pensa ter perdido a alma. Eis o contexto do assassinato: Jesse é compelido por Walt a matar o pobre químico, que implora para não morrer. A morte ocorre para obrigar Gus a aceitar que Jesse e Walt trabalhem juntos no laboratório, já que Gale vivo significaria que Walt seria substituível. Para Gus, seria questão de tempo para que Gale aprendesse tudo o que sabia do "mestre"; e Walt, sabendo disso, isto é, sabendo que sua vida anda por um fio, faz todas as suas maquinações e enfim safa-se de mais um perrengue dentre tantos que já se safara e de outros tantos mais dos quais ainda viria a se safar. Mas, de um perrengue livrado, entra noutro pior: através de um contrato vitalício, de um pacto, torna-se juntamente de Jesse um escravo de Gus, que desta vez usará a sua já comentada segunda carta. Estrategista nato, Gus fortifica o seu negócio enquanto morde e assopra com os caras do cartel, sujeitos que lhe dão dor de cabeça (os Salamanca e cia.). Tem em mente dois objetivos que se entrecruzam. O primeiro é destruir o Cartel que lhe pressiona e que matara no passado um velho amigo seu, Max (aliás, inicialmente, Walt é visto como um novo Max). O segundo, conquistar a confiança do bom rapaz que é Jesse, para então, uma vez tendo-o conquistado, pô-lo contra Walt, arrumando assim o tão desejado motivo para sumir com o professor.

Nesse sentido, o "antagonista" da série é na verdade o sujeito que tem dentro de si um repertório significativo de princípios que não correspondem a um jeito de ser afetado e ressentido; e que é justamente para se precaver de um sujeito inescrupuloso "ao quadrado" que pretende-lhe passar a perna e para proteger o império que é seu que age segunda àqueles princípios: eis Gus Fring, que, diga-se de passagem, malogra justamente em seu calo aparentemente mais inócuo, isto é, no calo-Hector, onde sempre resguardara a perpetuação da vingança na tortura constante: lembrar do mal que o velho lhe fez até este morrer. Tal detalhe foi justamente o que mais afetara-lhe a razão. E Walt, em contrapartida, com a ajuda do sopro no ouvido de seu "diabinho" Saul Goodman, esse advocatus diabolis, soubera tirar a devida vantagem: mata Gus numa emboscada, este que no fim se mostra fisicamente humano, de carne e osso, como que para frisar que ele é mais “gente” do que seu algoz.


O "protagonista", por sua vez, é o mais sujo de todos: Walt. Embora um narcisista atroz, este carrega dentro de si algo de misterioso que faz com que nos compadeçamos. Sim, incontáveis desgraças se desenrolam por sua culpa. Mas mesmo assim (como eu disse nos parágrafos iniciais) algo em Walt nos faz intuir que ele não se vê satisfeito com a embrulhada na qual se envolvera. E de fato não se satisfaz. No entanto, como a todos numa enrascada do tipo da de Walt, ao ver que não pode fraquejar, precisa pela pressão ser impiedoso para provar aquilo que nem mesmo para si está tido como certo: sua moral. E já que quanto-maior-é-a-altura-maior-é-a-queda, torna-se mister portanto tomar atitudes cada vez mais radicais e ardilosas que lhe impeçam a queda. As circunstâncias põem-no à prova de tudo, pois parecem prever a vertigem sobre o precipício. E os sinais faltam gritá-lo. Em sua festa surpresa no episódio-piloto, Walt num momento segura uma cerveja e noutro, uma pistola, que é “pousada” na sua mão - eis um sinal. Depois, Hank convida o cunhado para ver uma batida policial e nesse mesmo dia reencontra um Jesse há muito não visto - eis outro. Mais adiante - ainda outros: com o coração dilacerado e a alma ferida, Walt mata Krazy-8; negligencia a overdose da pobre Jane, transferindo com isto uma culpa imaginária tão pesada em Jesse que este acaba pondo em si próprio uma "coleira psicológica"; neutraliza sem pestanejar dois capangas de Gus e em seguida Gale; e por fim encomenda a chacina de potenciais informantes que trabalhavam para Mike, chacina esta que ecoa o expurgo realizado a mando de Michael Corleone enquanto "renuncia a Satanás" n’O Poderoso Chefão e o expurgo de Hitler na Noite das Facas Longas (a esta última referência retornarei mais à frente). No cerne de todos estes "incidentes" reside Jesse, aquele em quem os efeitos das ímpias empreitadas de Walter sempre recaem. Pois embora Walt bata em todos ao seu redor, quem leva os golpes é Jesse. Por acaso seria este, ao enxergamos a cosmologia da série, a voz consciente entre tantos personagens desvirtuados? Também seria Jesse, uma vez inserido noutra cosmologia (desta vez na de Walt), uma representação da humanidade que ainda resta no professor de Química, humanidade esta que é sempre flagelada pelas terríveis circunstâncias dos acontecimentos desse destino que não escolhe os homens que quer atingir com tribulações, tal como ocorrera com Édipo? O episódio The Fly (que aliás faz referência a dois físicos), se não responde tais questões, pelo menos as torna pertinentes.


Dentre tantas questões que levanta e dentre tantas nuances nas quais elas são inseridas, The Fly parece remeter à peça Copenhagen de Michael Frayn, cujo contexto casa perfeitamente com o contexto Walter-Jesse. Os protagonistas da peça em questão são os físicos Werner Heisenberg e Niels Bohr, e nela é retratada a amizade rompida dos dois, que se encontram na capital dinamarquesa (Copenhagen, título da peça) em plena ocupação nazista em 1941 para discutir minúcias de Física Quântica, com Bohr prestes a refugiar-se nos Estados Unidos, enquanto Heisenberg, já um colaboracionista dos nazistas, está prestes a maquinar certas coisas. Que fique claro: o episódio retratado e a realidade não condizem entre si, já que nunca se confirmou o que rolara no encontro entre os dois físicos. Mas a peça reconstrói o momento, “ficcionaliza” o encontro: cheia de tiradas inteligentes e metafóricas, a ação da peça situa-se num palco circular, e os atores, tal como elétrons em torno de um núcleo atômico, nas palavras de Marcelo Knobel, "giram e colidem nervosamente". Reside aí mais uma personagem: esta é a mulher de Bohr, Margarethe, que representa o papel do núcleo atômico. Suas intervenções equilibram o papo abstruso dos físicos, permitindo assim que os leigos entendam os assuntos complexos discutidos. Pelo próprio mistério do encontro, uma das metáforas utilizadas na peça é a do Princípio da Incerteza, formulada por Heisenberg (o Werner), e que é inclusive uma das bases da "Interpretação de Copenhagen" da Mecânica Quântica, da qual ambos físicos são responsáveis diretos.

"Agora já estamos todos mortos, é verdade, e o mundo só se lembra de mim por duas coisas: o princípio da incerteza e por uma misteriosa visita a Niels Bohr em Copenhague em 1941. Todos entendem do que se trata a incerteza. Ou acreditam que sim. Ninguém entende por que fui a Copenhague" - tais palavras são proferidas por Werner Heisenberg assim que este entra em cena na peça. Mas não convém aqui falar das minúcias desse assunto denso que é a Física Quântica, nem falar detalhadamente sobre a peça de Frayn. Convém, sim, elucidar a relação - ainda que superficial - de tudo isso com o episódio The Fly. Seria o laboratório onde Walter e Jesse se confinam a famigerada Copenhague, um microcosmo desta? Provável que sim. Seria a relação entre Walter e Jesse um eco da relação problemática e abusiva entre Heisenberg e Bohr? Também é provável. Não que o contexto dos físicos tenha uma relação muito estrita com o dos "cozinheiros". A mera metáfora implícita contida em The Fly já concebe uma relação natural com o episódio de Copenhague - e isto, creio, é suficiente.


Dirigido por Ryan Johnson, The Fly é em si uma incerteza (perdoem o trocadilho). Pertencente à 3ª temporada, a filmagem do episódio foi motivada pelo orçamento apertado da produção naquele momento (2010), o que dificultou as filmagens em outros locais. Daí o motivo da série se passar inteiramente dentro do laboratório. Mas o que é útil também pode ser agradável: aproveitou-se então com esse imprevisto a chance de se desenvolver com mais intensidade a relação entre Jesse e Walter, que (diga-se de passagem) já fora explorada em 4 Days Out (2ª temporada). Tal como só ficara entre Bohr e Heisenberg o contexto de seu misterioso encontro em Copenhague, também ficara apenas entre Walter e Jesse a conversa que tiveram entre si no laboratório (aqui excluo os espectadores, obviamente). E a conversa entre os dois é profunda - e comovente. Nela vemos um Walter amargurado, claramente arrependido de tudo o que fez, trazendo à luz toda uma explicação cósmica para o que houve até então, dando ao que passou e ao porvir certo tom apocalíptico. Para além do que evoca a caçada dos cozinheiros à mosca, a cena em que conversam é filmada de um modo distinto do das cenas de outros episódios, isto é, teatralmente, com posições bem marcadas, esquematizadas, com Walt mais à frente no quadro, despejando sinceras palavras saídas do coração; e Jesse ao fundo tranquilizando-o, pedindo-lhe que seja menos duro consigo mesmo. Noutro momento vagueiam pelo laboratório como se fizessem círculos, tal como na peça de Michael Frayn, recriando assim o seu contexto (a câmera seria o núcleo atômico). Embora não se saiba se foi ou não a intenção de Vince Gilligan em traçar tal paralelo, o que é inegável é o quão curioso tal paralelo se nos afigura.


Agora outra coisa - mas que tem ligação com o resto: já notaram certo voyeurismo nesta série? Se não, continuem nas linhas que se seguem. Se sim, que também continuem.


Alguém (ou algo) bisbilhota Walter. Mas quem o faz? Não dá para saber com exatidão. É possível, contudo, soltar alguns palpites. E para fazê-lo, convém citar o mito de Fausto, lenda medieval que deu origem ao poema de Goethe. Tal mito, em seu subtexto, diz respeito ao desejo do homem de ser absoluto, isto é, de viver insatisfeito com o que tem, usando então a insatisfação como motor para querer mais, para alcançar o inalcançável. Fausto, que encabeça o mito, é um homem inteligentíssimo, mas deseja ter mais conhecimento. Com o intuito de conseguir tal empreitada, faz um pacto com o Demônio, figura encarnada na pessoa de Mefistófeles. Não é preciso conhecer o mito para saber o que se sucede com Fausto: este, ambicioso, malogra, pois o que o encanta é um amor-próprio, uma vez que o anseio de ter mais conhecimento baseia-se muito mais num narcisismo desenfreado do que de fato no conhecimento adquirido para fins superiores, nobres; e tal desvirtuamento encarna-se no pacto que faz com Mefistófeles. Assim se sucede com Walter White, bisbilhotado a todo tempo por um "anjo caído", que propositalmente lhe induz a traçar o mal caminho. Não conseguira nada na empresa Grey Matters. Tampouco no magistério. Uma terceira opção então se lhe afigura: a vida do crime, isto é, a produção de "meta" (ou, como é dito no original, "meth"). Nesta terceira opção consegue muita coisa. Torna-se enfim o grande Heisenberg. Mas este mesmo Heisenberg, cujo nome vive na boca de todos que lhe fixaram a lenda, é mero "cozinheiro". É o melhor dos cozinheiros, aliás - mas apenas isso. Sempre é mandado por alguém. Nunca manda. E quando enfim manda, seu ego lhe destrói. Nesse sentido o grande Heisenberg é na verdade pequeno, pois quem lhe engrandece é o "anjo caído", anjo este que o faz ser megalomaníaco, um "astrônomo erudito", para que, uma vez pondo-o sobre o pedestal da grandeza, poderá enfim derrubá-lo do precipício. E a queda será grande, pois Walt se encontra no Everest. Apenas em sua cabeça que é o maioral, acima do bem e do mal, sempre desdenhoso com os meros mortais. Ele é como Raskólnikov, que busca e encontra uma desculpa moral para matar a usurária. Mas, ao contrário do personagem russo, Walt não tem uma redenção muito doce. Não existe para si uma Sônia que possa lhe recitar a passagem de Lázaro. Nada disso. O "vale de lágrimas" é reservado a Walt. Só que tal decadência não ocorre do nada. Existe um percurso, um longo percurso de perfídias. E a desculpa é sempre a de atingir excelência na produção. Produzir, produzir, produzir. Mas produzir o quê? Ora, a "blue meth". Nesse sentido, a produção da "meta" seria o motif da série. Pois a "blue meth" deixa de ser coisa concreta para virar uma ideia, uma alegoria: ela se torna um paralelo dessa busca incessante do Fausto - quer dizer, de Walt. Tanto que a partir de certo momento a produção torna-se obsessiva. E Walter a produz como se alguém o obrigasse a produzi-la. Quer dizer, de fato o obrigam: seu superior, Gus, o "susserano". Mas é que falo noutro sentido, no metafísico. Alguém de fora sopra-lhe no ouvido: "não pare... não pare..." Algum bisbilhoteiro lhe pressiona. E a série dá os sinais. Despeja-os a torto e a direito: o primeiro deles é o da queda do avião; o segundo, o do olho do urso rosa na gaveta, no chão e em tudo que é canto; e o último, o da câmera do laboratório, que vigia Walt. A presença "demoníaca" se avizinha... Num episódio da quinta temporada, quando já não há mais Gus, Walt "reinicia os trabalhos" juntamente de Jesse, Mike (a representação mais que óbvia do cansaço, do fatalismo geral, representação esta que falta nos dizer: "Walt, chega dessa vida!") e da astuta Lydia (versão feminina de Walt, que, como este, sabe jogar e blefar, mas vive apavorada em sofrer represálias por aqueles que sacaneia). De volta ao jogo, agora livre do Gus mas não das broncas do velho Mike, o professor vive mais posudo e marrento do que nunca, agora livre de qualquer autoritarismo: pois é ele próprio o ditador louco. Trabalhando naquela casa dedetizada (não tanto assim, pois veem-se cá e lá certas baratas), pois nela pode ser discreto na produção de metanfetamina, por lá Walt conhece um rapaz sonso (aliás, este se apresenta). O rapaz, de nome Todd, deseja aprender tudo o que o professor conhece. Diz-lhe que é capaz de aprender, mas é meio lambão. Todd é o diabo em pessoa - a começar pelo menino que mata à sangue frio após o roubo do trem. Depois, só piora - e o pobre Jesse avisa.

(Retornando ao voyeurismo antes comentado, prossigo com o tópico e o finalizo).

Das sugestões de um bisbilhoteiro em off, elas enfim se aglutinam na figura de Jack, o tio nazista de Todd. Jack seria a transfiguração definitiva de Mefistófeles, isto é, a consequência a longo prazo da obsessão em produzir "meth" a qualquer custo. Walt mete-se na toca dos leões. Quem o joga nela é Todd, o humilde que quer ser ensinado, espécie de segundo Gale, que infla o ego do professor.


Há quem diga que a série parece empacar logo em sua última temporada. Não é verdade. Esta começa com Walter acabadíssimo, com cabelo e barbudo, por um motivo simples: alguma merda aconteceu - e por isso queremos saber como tudo vai acabar. Pairam ainda muitas interrogações. Como ficarão as coisas com Hank? E com a família? Com o mundo do crime? Etc. A série, iniciada naquele rebuliço em To'hajiile, mostra-se no fim das contas como o longo percurso de cinco etapas rumo à plena insanidade de Walter White, que na última delas precisa lutar contra o seu doppelganger, e é derrotado por este. Talvez a fala que mais expressivamente resuma a iminência do desfecho trágico da série seja a de Walt, em que fala a Mike no leito de morte deste "que tudo isso poderia ter sido evitado". Aliás, tudo mesmo. E certo episódio da 4ª temporada representa o início do fim. Em Shotgun, Walt, embriagado de vinho, insinua a Hank (este, recém-recuperado do acidente, não queria mais saber do seu "criminoso favorito") a possibilidade de Heisenberg ainda estar solto por aí. Parece ecoar uma cena de Crime e Castigo, na qual Raskólnikov, em todo o seu ego e culpa, ao ficar insinuando a Porfiry que o assassino da usurária estaria por aí zanzando pelas ruas, parece querer inconscientemente ser pego. Sucede-se o mesmo com Walt, que a partir desse momento encabula o cunhado, o que o faz voltar à caçada.


Agora, a pergunta de um milhão de reais: quando Hank lê a dedicatória das Folhas de Relva, ele descobre o segredo do cunhado ou apenas têm a confirmação daquilo que já suspeitava? Inclino-me à segunda hipótese. E inclino-me a ela pelo seguinte motivo: gosto de resumir a jornada de Hank como uma jornada de amadurecimento: do jeito arrogante e jocoso para com os inimigos, adota aos poucos um jeito mais maduro e contido, um jeito que demonstra respeito pelo inimigo, não mais o subestimando. Os minerais, que durante a convalescência passa a conhecer com certo afinco, são como um simbolismo - eles dizem: conhece o teu inimigo. E tudo ao mesmo tempo parece inferir que ele assume essa postura como que antecipando o choque (ou confirmação) que terá quando descobrir que o rato que procurava era o seu próprio cunhado. Na troca de tiro com os irmãos Salamanca, o modo como estes aparecem para matá-lo é revelador: os irmãos, que são dois, brotam inicialmente como uma só pessoa, numa silhueta surrealista; após a aparição da silhueta, esta se bifurca. Seria tal aparição a seguinte mensagem: há um inimigo dentro do próprio Hank. Este é seu próprio inimigo. Aliás, há dentro de si o barbarismo que tanto denuncia nos mexicanos que detesta. E outra coisa: uma luta dentro de si é travada para não acreditar que talvez seja o seu cunhado a mente por trás de tudo. Pois isto com certeza já passara muitas vezes na sua cabeça. E embora Hank seja deveras esperto, prefere fechar os olhos (ou fingir) para não enxergar o óbvio: que o cunhado está metido em coisa errada e que não se trata de aposta. Mas tudo é ambíguo. Pois Hank tem um jeito duplo de se expressar. Nunca se sabe quando está fazendo uma brincadeira: ou parece que quer arrancar alguma informação crucial ou apenas brincar. O ápice da relação entre os cunhados reside no incidente da prisão, em que Walt ordena um expurgo à la Hitler dos potenciais informantes que trabalhavam para o Mike, para que estes, já na cola de Hank, não soltem quaisquer informações comprometedoras a seu respeito. Última cartada para que Hank descobrisse quem é Heisenberg, esta foge-lhe das mãos. Walt, com a alma vendida ao Diabo - tal como Michael Corleone no fim d'O Chefão -, e tendo estabelecido o seu "reich", lança enfim o seu último blefe, ecoando inclusive aquela partida de pôquer com o cunhado na 1ª temporada.


Só que existe um problema: não é Walt o “chefão” ("Você está mais para Fredo", como disse Saul Goodman). Parecia apenas. Novamente aqui pôs-se à beira do precipício, ludibriado. Quem encabeça o "regime" é Jack, o Mefistófeles. A este é entregue a vida de Hank, o "ASAC" Schrader, vítima do cunhado conivente com nazistas. Walt joga a sua última partida de pôquer. Perde no blefe. Malogra.



Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Amante de Cinema e leitor assíduo. Sonha ingenuamente em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Tem como inspiração para seus escritos o legado de grandes pensadores desta área e de outras. De forma árdua, tenta unificar todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.