• Matheus Oliveira

Cinema: Uma Arte Impura

Atualizado: 13 de Out de 2020



Posso dizer que minha cinefilia começou oficialmente quando aos sábados, perto do entardecer, assistia aos filmes de uma antiga edição da Sessão de Sábado (foi transmitida pela Globo em meados dos anos 2000 e a predominância da programação era de filmes de Ação - pelo menos é o que eu lembro). Van Damme e Stallone eram os rostos mais comuns vistos nesses filmes. É claro, também passavam dramas e comédias aos montes, mas os filmes de Ação é que chamavam mais minha atenção, por motivos óbvios que fazem qualquer moleque vibrar quando Frank Dux, cego com poeira nos olhos, derrota o corpulento Chong Li, ou mesmo quando Falcão vence seu último oponente no braço de ferro - são sequências inesquecíveis de filmes inesquecíveis. Mas não estou aqui para falar de gêneros cinematográficos, nem sobre uma suposta hierarquia de qualidade entre eles, e sim da importância que certos filmes têm no início da nossa cinefilia e como eles contribuem para a formação do gosto cinematográfico.


Longe desses filmes serem primorosos feitos da história do Cinema, já que a maioria deles são medíocres e chegam a ser até ruins. Mas a questão não está na discussão da sua qualidade, e sim no impacto imediato que eles, sendo bons ou ruins, provocaram em nós desde cedo. Se por um lado, esses filmes, analisados a partir de um juízo generalizado, parecem medíocres, por outro, e agora julgados a partir de suas especificidades, parecem marcantes e incrivelmente bons. Por que isso? Pode um filme ruim ser salvo por um punhado de cenas marcantes ou mesmo por um singelo momento que dura poucos minutos e até segundos? Esta pergunta sempre fiz a mim mesmo, e sempre tive o desejo de alargá-la em formato discursivo, para tentar demonstrar a sua vastidão e complexidade, que, refletida, chega a um denominador comum: a questão da plenitude do filme. Um filme pode ser ruim mesmo quando é dotado de momentos grandiosos (ou significativos, apenas) que o salvam da nulidade plena e da definição generalizante que o chama de "ruim"? Ou ele, sendo pleno, é definido unicamente pelo seu todo medíocre, ignorando mesmo assim suas cenas memoráveis que provavelmente o engrandeceria? Ou melhor: o filme, longe de ser pleno, mas, antes, um fenômeno possuidor de partes tão desiguais e heterogêneas que inviabiliza a nossa tentativa de totalizá-lo como coisa absoluta, pode então ser julgado unicamente por seus momentos de pico? Colocando toda a questão neste nível, é possível clarear um pouco do mistério do porquê de tantos filmes medíocres nos marcarem com tanta intensidade.


A compreensão acerca da plenitude deles talvez exista numa zona intrincada do intelecto, zona esta que é de difícil acesso para nós, seres limitados e cheios de incongruências. Ou então a plenitude talvez se resuma justamente à pluralidade dos elementos fílmicos, que implicam uma unidade (seja narrativa ou estilística) com partes dissonantes que representam o próprio aspecto pleno da obra. Não se trata de pureza, de imáculo, porque os filmes são dotados de uma natureza tão desigual, tão "temperamental", que exigir plenitude e perfeição duma arte que não é "pura", significa fazer buraco em água, já que "tantas artes e ofícios entram no cinema e tantas coisas podem dar errado, que o cinema não é uma arte para os puristas." Ou, no fim das contas, a plenitude seja inexistente apenas em nossas opiniões. Nessa constatação, enfim, se confirma a citação de Pauline Kael logo acima, já que as opiniões, certas vezes, representam nossa insatisfação manifestada numa reação frustrada a algo que não condiz com nossa expectativa inicial - até mesmo quando as opiniões são justas e coerentes, não chegam ao porte da austeridade que uma obra artística impõe sobre nós. O filme, neste sentido, talvez seja pleno à sua maneira, e até mesmo os ditos "filmes ruins" passam por este crivo.



Ninguém começa a cinefilia com Bergman, Godard ou Kiarostami, mas sim com as melhores mediocridades que o cinema pode oferecer. Assistimos a estas tralhas, livres de julgamentos e preconceitos, e de repente, sem nem perceber, estamos educados cinematograficamente. Uma cena ou duas nos marcam e ficam gravadas na cabeça para sempre. Certas vezes, por exemplo, ao desejar se lembrar de uma época remota da infância, recorremos a um filme antigo que vimos quando criança, e então o sentimento desse período longínquo surge em nós junto dos sentimentos intensos do filme recordado, que se tornou a própria síntese da tal época remota da infância. Quem é que ao lembrar de Matilda não recorre imediatamente à traumática cena do menino que é forçado a comer um bolo gigantesco por ordem da tirana Truncbull? Vejam bem, uma cena como esta resume uma época, ou mesmo uma experiência. Vivemos, graças a filmes como este, a sensação de intenso pavor até então inédito, de modo que ao lembrar de algo terrível, recorremos à cena em questão.


Mas por que isto? Por que esta associação? Ora, o cinema, mais do que as outras artes, mexe com nossos sentimentos mais primitivos, com fenômenos que nunca sentiríamos através de outro modo senão daquele de sentar-se no sofá, diante de uma tv, e se entregar à poderosa magia do audiovisual. É por isso que dentre tantas químicas, o cinema combina, sobretudo, com a infância, pois é nesse período que descobrimos as coisas vitais da vida. E o Cinema, certamente um monolito negro kubrickiano¹, é uma dessas coisas: ele nos ensina a ser humanos, a saber conciliar os sentimentos mais rebeldes dentro de nós e a evoluir - e tudo isto reside nos filmes do início de nossa cinefilia, vistos sem a menor pretensão. Por isso procuramos estas sensações nos filmes que hoje vemos, pois mesmo suficientemente instruídos, ainda insistimos em procurar e escavar aquela ponta de pureza descoberta no prólogo de tudo. Ainda procuro aquilo que senti vendo Duma e Meu Cachorro Skip, duas obras marcantes que assisti quando criança, mas que preenchem minhas mais doces lembranças. Há também o comovente e definitivo Enchente: Quem Salvará Nossos Filhos?, que, de tão remoto na memória, nem mesmo lembro quando foi que eu o vi. Esqueci de muitos detalhes: quem dirigiu, quem atuou. Tampouco sei se é bom. Mas algo forte, intrínseco a ele, permaneceu em mim, que foi a tristeza profunda talhada na tela: pais aflitos, drama sem música, e um ônibus empurrado lentamente por uma correnteza impiedosa. As imagens não são muito claras, e aqui só descrevo abstrações, mas neste telefilme de 1993 percebi uma face dessa arte que antes me era oculta, e que fui tomando consciência aos poucos: ela fala da Vida, de suas partes boas e ruins, e um punhado de momentos soltos, sobre os quais desconheço o contexto, ainda enche minha mente de reflexões.



Talvez assistamos aos filmes não para buscar a tão cobiçada perfeição, mas para resgatar o fragmento de perfeição daquele sentimento primitivo que em tempos remotos já nos pertenceu. Não apenas nos confundimos com estas ambições como também nos equivocamos ao não encará-las como uma coisa só. Assistir dezenas de vezes a sequência do trem em Homem-Aranha 2 para reivindicar aquele velho e gostoso sentimento de orgulho pelo teioso é uma tarefa que tem significação em si mesma, e resume a essência das tais ambições comentadas. Vivemos, enfim, numa busca insaciável!


Pensem nessa experiência: um filme é exibido. O assistimos sem esboçar reação alguma, inseguros em nos entregar por completo e sair frustrados, até que uma cena singela nos pega em cheio e de repente... bum! O filme vale a pena, tudo faz sentido e a vida se colore. Os sorrisos se esboçam involuntariamente, e os olhos esquecem que devem piscar. Até um dado momento era um filme alheio, indiferente, antipático, e de uma hora para outra passou a significar tudo o que há de bom na vida.


Mesmo um filme inteiramente marcante tem seus picos, e é sempre dotado de uma grande cena ou situação: para mim, o momento de O Poderoso Chefão: Parte II em que Michael beija Fredo ao noticiá-lo sobre a traição, é o cume desse filme. Às vezes ponho o filme apenas para rever esta parte, ou assisto o trecho no YouTube enquanto volto para casa de ônibus (tem, aliás, a cômica ocasião de eu me pegar repetindo sozinho a frase do Michael: "I know it was you, Fredo. You broke my heart"). Existe neste trecho do filme algo tremendamente profundo que é difícil de explicar e de contextualizar, que ultrapassa a mera explicação óbvia dos pormenores da situação. Possui nesta situação fraternal algo além, e é este "além" que sustenta a paixão indomável que sentimos pelo Cinema. Os filmes são sustentados por esta ambição obstinada que pretende encontrar e compreender o "além" presente em trechos isolados. Não por acaso, a 2ª parte do Chefão é meu filme favorito, e já o assisti mais de vinte vezes em busca do que está por trás deste épico da máfia.


E quanto aos filmes ruins e medíocres, o que lhes sobra? O exemplo mais claro que tenho para dar é o de Procura-se Amy, do americano Kevin Smith. É uma obra cativante, engraçada e às vezes comovente, mas é, no fim das contas, bobinha. Mas por que ela, sendo bobinha e até esquecível, jamais saiu da minha cabeça? Ora, é porque Amy tem seus momentos de brilhantismo e de fofura, e um deles é a memorável cena do karaokê, na qual Alyssa (Joey Lauren Adams) canta a canção Alive supostamente dedicada a Holden (Ben Affleck). A cena se passa num karaokê às escuras, e o ambiente nele é bem casual e convidativo. Obviamente que não dá para transmitir a sensação para quem ainda não viu o filme, mas quando vi a cena, não consegui desgrudar os olhos da tela, pois a melodia de Alive, suavizada pela voz de Joey, já havia me hipnotizado, e então, sem perceber, o filme me ganhou.


Não dá para saber se era este sentimento que Kevin Smith propositalmente quis evocar ou se fez isto sem querer, apenas sei que ele criou uma cena linda, e ela, em todo seu esplendor, talvez justifique seu esforço e talento como cineasta e o próprio filme como um todo. Sim, o resto dele me é indiferente, mas esta cena eu guardo no coração. Poderia dizer que Amy é ruim, mas não devo, e não devo dizê-lo porque não seria sincero da minha parte. Desde então nunca tirei esse filme da cabeça, e sempre que assisto a um filme de romance o idealizo segundo a imagem do karaokê. No fim das contas, talvez não se trate de procurar obstinadamente filmes bons e evitar os ruins, mas tentar encontrar, na miríade de obras a nossa disposição, uns poucos e breves momentos bons que fiquem gravados para sempre na memória.

1 Referência aos poderes do monolito de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Amante de Cinema e leitor assíduo. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Tem como inspiração para seus escritos o legado de grandes pensadores desta área, de Bazin à Pauline Kael. De forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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