• Leandro de Sousa

Diário de Quarentena #01 | Truffaut e James Dean

Atualizado: 4 de Abr de 2020



Não há melhor forma de valorizar um conceito sendo obrigado, seja de forma compulsiva ou voluntária, a experimentar o seu oposto. A liberdade é algo delicioso, mas agora na iminência de ficarmos doentes e até de morrer devido a uma doença que se alastrou pelo mundo, somos obrigados a ficar dentro de nossas casas – a maioria de nós, pelo menos. Dessa forma, a letra daquela música “Diário de um Detento” do grupo Racionais Mc’s passa a fazer sentido para alguns, principalmente o trecho que diz: Alguns companheiros têm a mente mais fraca. Não suportam o tédio, arruma quiaca”. Não que iremos arrumar “quiaca” o tempo inteiro – talvez com nossos pais e/ou irmãos/irmãs -, mas certamente acharemos uma forma de matar o tédio ou iremos olhar para o teto pelos próximos meses.


No ano de 2019 eu praticamente não assisti filmes, pois estava sem computador e tudo o que pude aproveitar do cinema eram algumas estreias, o catálogo disponível na Netflix e até mesmo no Youtube. Esse ano logo no início decidi juntar dinheiro e comprar um notebook; voltei para a minha tão amada sétima arte. Assistir a filmes nunca foi uma tentativa de matar o tédio, sempre o fiz por paixão e para adquirir mais conhecimento, buscando diversos diretores de diversos períodos; tenho feito isso desde que estou com o novo computador.


Hoje, dia 23 de março de 2020, comecei oficialmente a minha quarentena, e agora o cinema será mais do que um entretenimento, ele será o teto para o qual eu devo olhar pelos próximos meses; um teto que toma forma, cor e vida. 


Dito isso, resolvi reviver o site que estava parado há alguns meses – com isso aproveito para pedir desculpas aos que nos leem e ficaram todo esse tempo sem conteúdo - e usar esse espaço como uma forma de documentar os filmes que vou assistir ao longo da quarentena. Veja bem, não há uma regra. Posso assistir a três filmes no mesmo dia e listar aqui da mesma forma como posso assistir apenas um, ou então posso decidir assistir a uma série e também listar aqui. A ideia é dar a você, que assim como eu ama cinema, ideias do que assistir nos próximos dias ou meses.


Aproveite esse período. Ele logo vai passar e você terá saído dele mais forte do que entrou. E acima de tudo: FIQUE EM CASA! – ah, e lave as mãos.



Atirem no Pianista (François Truffaut)


Sempre tive problema com o termo “crítico”. Apesar de eu nomear a maioria esmagadora dos textos que posto aqui no site de crítica, não tenho conhecimento suficiente sobre o Cinema para me classificar como tal. Sim, já assisti muitos filmes, mas pouco para conhecer quase 130 anos de Cinema. Uma das grandes pendências que tinha antes de comprar o notebook era a Nouvelle Vague e com isso, a curta – mas essencial - filmografia de François Truffaut. Hoje resolvi assistir ao seu segundo longa: Atirem no Pianista.


Assim como qualquer filme dessa Nova Onda, Atirem no Pianista tinha como objetivo falar sobre a passagem de eventos na vida de seu protagonista, um pianista chamado Charlie Kohler. O conflito se inicia quando o seu irmão, fugindo de dois bandidos, vai atrás dele no bar aonde ele está tocando para pedir-lhe ajuda. Assim como em outros filmes desse período, o conflito tem mais como objetivo nos grudar ao protagonista para que acompanhemos sua jornada do que como algo que deve ser resolvido com uma certa urgência. Em seu longa anterior, Os Incompreendidos, Truffaut buscava demonstrar a passagem do tempo e as adversidades familiares através dos olhos de uma criança. Nesse ele apenas busca contar a frustração e o esquecimento de alguém que fora um grande artista e que agora só pode viver de lembranças e arrependimentos.


É um filme pouco pretensioso e até menor se comparado ao seu primeiro e os posteriores. Não chega a ser um dos mais importantes para entender esse movimento, mas que pecado mortal seria negar Truffaut.




Juventude Transviada (Nicholas Ray)


Juventude Transviada certamente foi o percursor de diversos Coming To Age. Ao assistir ao filme ficou clara a inspiração de diretores como John Hughes e até mesmo Richard Linklater.



A trama do filme não é o mais interessante aqui, já que por vezes pode sofrer com alguns diálogos expositivos e cenas que não agregam muito ao restante da narrativa. O que realmente importa é o personagem de James Dean que se chama Jim Stark. Um garoto que sofre com a própria alienação de seus pais; que não possui nenhum suporte psicológico por parte destes e procura provar a todo instante que não é um covarde tal qual seu próprio pai que é a todo momento dominado pela mãe.



Jim se sente acoado e com medo, mas em dado momento ele conhece alguém que está numa situação tão ruim quanto a dele e precisa amadurecer para que possa ajudar essa pessoa. Ele precisa ser tudo o que seu próprio pai não é para ele mesmo.



Juventude Transviada é mais um longa que mostra que, apesar de breve, a passagem de James Dean pelo Cinema foi extremamente marcante.


Até amanhã, pessoal!



Leia aqui o segundo texto da série



Sobre o autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

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