• Matheus Oliveira

Diário de Quarentena #02 | A Melancolia de Hou Hsiao-Hsien

Atualizado: 26 de Mar de 2020

Poeira ao Vento (1986)


Filme taiwanês que trata do êxodo rural, mas é lá no fundo sobre a desolação de vidas sem propósito e sobre a crueldade do destino para com elas. Dirigido por Hou Hsiao-Hsien (conhecido pelo drama histórico Cidade das Tristezas e pela antologia Três Tempos), Poeira ao Vento é sobre um jovem casal que resolve partir para a cidade grande, Taipei, em busca de oportunidades, mas acham por lá mais dificuldades do que antes. Seguindo a tradição de seu colega Edward Yang, Hsiao-Hsien faz aqui um drama de contexto social e de contraste espacial, sem nunca soar determinista, pois não nos impõe o contexto nem o contraste - apenas os insinua. Isto porque o seu método de descentralização - aqui presente mas propositalmente menos intenso - tenta colocar, mais ainda, à deriva os protagonistas desolados num panorama social solidificado e hostil da cidade grande capitalista. Aliás, a pouca intensidade do método de Hsien tem um motivo: ele quer, através dessa hostilidade, criar uma atmosfera melancólica, passadista, e não poderia criá-la sendo alheio à sua construção. Assim, é como se Hsien olhasse para trás, sentindo falta de alguma coisa (as lâmpadas presentes em alguns planos representam o olhar do diretor àquele mundo perdido). É ele mostrando o êxodo rural, a rotina singela dos viventes campestres, o vovô sempre escorado à porta do seu lar, mas ainda assim lamentando muito - ou seja, é um drama social revestido por um senso amargo de melancolia, que resulta num filme deliciosamente lânguido. Em toda paisagem natural há vestígios da modernidade, da industrialização, e Hsien insiste neste contraste - evoca Antonioni; há, também, trilhos vazios e ocupados, como se representassem a trilha humana neste mundo cruel.



Leia aqui o terceiro texto da série






Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pauline Kael e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.



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