• Matheus Oliveira

Nope: o filme mais pessoal e ambicioso de Jordan Peele

Atualizado: 7 de set.



(Atenção: o texto a seguir contém spoilers!)


 

Jordan Peele dirigiu até agora a sua obra mais pessoal - e a mais ambiciosa.


Nope, novíssimo filme de Peele, começa com ares misteriosos, imbuído dessa carga pesada e caótica típica de obras anteriores suas, que intui um clima de violência num crescendo; e termina simples e simbólico, mas reverberante, do jeito como uma obra-prima deve acabar.


Difícil imaginar que Nope fosse trilhar o caminho que trilhou. Surpreendeu. A estrutura episódica, a intercalação entre o presente e o passado recente para instigar a curiosidade e a crítica social intuíam rumos distintos. Que caminho ele trilhou? O da metalinguagem.


A questão dos alienígenas é mera desculpa, "artifício". Dá elevação ao filme, fermenta a sugestão do fabuloso na cabeça do espectador, que já com o menor dos estímulos se morde de interesse pelos "ufos". Muybridge e o ator negro montado no cavalo: elementos que servem de pano de fundo histórico, e ao mesmo tempo insinuam, ainda que vagamente, a inserção da metalinguagem e da premissa de uma minuciosa crítica social à espreita.



 

A CRÍTICA SOCIAL


Intui-se um toque de reparação histórica, e junto dessa abordagem é inserido o assunto dos aliens; e de um jeito meio confuso, mas não caótico a ponto de não se identificar as conexões coesas, os assuntos se fundem para começar a concretizar as intenções de Peele.


Começa pela crítica, porque epiderme da obra, embora também seja parte sua importantíssima.


No geral, se quer gritar o justíssimo reclame: o povo negro sempre esteve aqui, chegou primeiro que o povo branco - aquele povo teve sua identidade desapropriada por este último. É um reclame que demanda reivindicações. Será preciso uma reparação, reparação histórica. Mas esta terá de vir não convencionalmente. Terá de vir de outro modo, talvez de "cima", isto é, através do desconhecido (descarta-se a princípio a conceituação puramente metafísica, uma vez que esta abstrairia ao extremo a crítica que começa do social).


Os brancos temerão esta vinda, pois saberão que será o fim de sua tirania. Os negros, inicialmente temerosos, logo a seguir se acalmarão porque sabem não ser os alvos, porque conscientes de que serão livres, livres da tirania branca, livres de um país fincado nesta supremacia doentia.


O agente salvador vem dos céus. Mas este salvador não tem a aparência esperada, idealizada. Diz-se que o salvador sempre esteve por ali, à espreita, em meio às nuvens (tal como pensávamos, quando crianças, onde se localizava o firmamento cristão), pastorando seus filhos pecadores. Errado. O salvador surge não com a aparência europeizada de Jesus Cristo, nem com a de uma luz atordoante, mas sim como um ovni barulhento, de aparência tosca, mescla de raia do mar com disco voador.


O cristianismo se desgarra da bandeira estadunidense. Pode-se agora falar de metafísica, uma vez que o véu social já predomina sob o véu metafísico, que não mais torna abstrata a discussão social. Não mais a metafísica torna invencível o império ianque. É a metafísica, agora, objeto estranho ao país torpe.


As leis terrestres tornam indomável a bandeira estadunidense. O estadunidense é o salvador do mundo, sabe o que para ele é bom e ruim. Sabe aliás com sua onisciência e onipresença o que é melhor para a Terra. Ególatra, esta nação se esquece do seu entorno. O que existe no além? Existe, para além da matéria escura, uma bandeira fincada demarcando território? Não, não existe. Quando a anomalia chega, chega sem avisar os desavisados e sem preparar os despreparados. Não há hegemonia ianque que peite o desconhecido, que peite um disco tosco e perigoso que suga indiscriminadamente as pessoas. Pede-se tanto a volta de Jesus; e no entanto o seu regresso se mostra decepcionante, uma vez que surge como ovni. Pior: volta com fúria, tragando os pecadores que se achavam na verdade os imaculados a serem poupados, os supostos detentores da moral suprema. Sofrem o revés os WASPs.


Toda esta amálgama deliberadamente caótica de ideias (tanto da minha parte quando da do filme)

é a partir de certo momento deixada de lado. Tem o seu espaço, e some. Uma vez que deu significativo peso crítico ao filme, é posta para descansar. Inicia-se então talvez a parte mais densa e mais simples: a da metalinguagem, isto é, a que Peele trata do ato próprio de ser cineasta.



 

A METALINGUAGEM


Tudo que serve como crítica social se converte em símbolo alegórico para induzir o espectador a ver Peele exemplificando o ser artista, que é também o ser cineasta.


Peele propõe um apanhado histórico que se integre à história: o protagonista é tataraneto do ator negro que cavalgou na animação de Muybridge na era do pré-cinema. O protagonista, nesse sentido, está unido em espírito ao ancestral, ancestral que é a um só tempo o próprio tataravô e o pré-cinema.


O diretor foi criativo: solidificou a relação que no futuro da projeção o espectador fará entre o background narrativo e a ideia metalinguística a ser revelada a posteriori.


Uma vez que estas partes se relacionam e se fundem na mente do espectador, metade do caminho já foi trilhado. É necessário então avançar.


Uma transição não muito evidente em dado momento ocorre em Nope. O momento transicional é difícil de localizar; apenas, dá para sentir a sua presença ao se aproximar e ao passar - palpite: quando Antlers Holst, o diretor arthouse, decide embarcar na onda dos protagonistas. A transição traz consigo outro filme, um filme anômalo, mas não no sentido pejorativo, e sim no sentido elogioso. Já não é mais tão esquemático, limitado por sua pauta. Quer dizer, ainda se pode enxergá-lo sob a ótica sociocrítica; apenas, é uma visão até dado momento estreita, reducionista. O próprio filme parece repelir este modo de enxergar. Repara-se numa cena um elemento crítico, e - pasmem - é uma crítica mordaz, esperta! Intolerável tal obviedade. Cinema não é só isso.


Se antes da citada transição, Nope era um filme como qualquer outro (convencional, mas dotado de uma cosmética excêntrica que o torna "diferentão"), logo em seguida ele vira um filme sobre o próprio advento fílmico, tentando, parece, retroceder a um hipotético discurso normativo para então transgredi-lo, "agredindo" o espectador ao lhe denunciar a mentira reproduzida a 24 frames por segundos. A transgressão inicia-se a partir de um elemento do imaginário popular: o dos alienígenas.


O alien foi a forma mais direta e ousada que Peele achou de fincar as premissas para o seu ambicioso discurso. Tal como Ahab, em Moby Dick, que se obceca em caçar o cachalote branco que lhe arrancou a perna, e que com isso provoca a sua própria destruição e a dos seus, também Peele, o próprio capitão perneta, se obceca pelo seu disco intrigante. Mas, se por um lado, a busca incessante por Moby Dick significava tantos aspectos capitais da vida, como loucura e obstinação, o disco anômalo condensa estes aspectos capitais da vida nos aspectos capitais de se fazer arte, mais especificamente a arte cinematográfica.


É inserida uma questão contemporânea: a que trata da veracidade dos registros que se tem hoje de ovnis, sendo grande parte dele registros falsos, porque frutos de edições meticulosas. Mas essa abordagem é um desvio voluntário que evita tocar de modo direto a questão principal: a do registro em si, a ambição de se filmar o "infilmável" (requisito de Antlers Holst).


Filmar o infilmável? Que vem a ser isso?


Todo o ritual dramático de aparição do ovni é nada mais do que o ritual dramático da gradual revelação do objeto que o cineasta está para registrar. O ovni representa um objeto que o cineasta tem de registrar sem nem sequer saber o que ele é, apenas sabe que terá de registrá-lo. Tal como a mãe com o filhinho na barriga, que ainda não o viu e que mesmo assim já o ama, assim o cineasta encara (com um pitada de ódio também) o seu futuro registro. O êxtase de filmar reside dentro de si, e o registro estranhamente é uma extensão de seu próprio ser.


O objeto que se tem de registrar é anômalo, porque desconhecido, e enquanto tal, toma conta do imaginário de quem quer registrá-lo, o cineasta. Vem então para este o revés: o objeto a ser filmado é uma nave alienígena. Quando menos se espera, não é o cineasta que registra, mas o contrário: o registrado é quem registra o cineasta. Daí a razão de o alienígena lá pelo fim da projeção engolir o cineasta Holst, alter ego de Jordan Peele, espécie de capitão Ahab do cinema.


 

Nope é mais inteligente do que se imagina. É abrangente, toca no âmago da sétima arte, pois é totalmente sobre o ato de registrar, de fazê-lo flagrando o agora, o momento a seguir, e por aí vai... O personagem do “cineasta Ahab” morre, mas morre fazendo seu trabalho e aturando os ossos do ofício. Filma o agora, filma a sua morte, toda a brutalidade deste evento conclusivo. Leva ao extremo o registro. A lente vira cúmplice dos olhos. A vida, da morte. É aliás sobre essa brutalidade natural do imediato, traduzida pelo milagre do movimento, de que parece se tratar o Cinema - e sempre tratou-se disso, desde os cavalos de Muybridge.