• Matheus Oliveira

Sempre chamaremos o Saul!

Atualizado: 18 de ago.



 

Better Call Saul não é bem sobre a origem de Saul Goodman, mas sobre a sua desconstrução face ao que supúnhamos saber a seu respeito em Breaking Bad.


BCS se inicia o fazendo. Revela-nos a maior das reviravoltas: o nome real de Saul, Jimmy McGill.


Coadjuvante em BB (aliás seu alívio cômico), o advogado Jimmy torna-se em BCS protagonista pleno, dividindo espaço com Chuck McGill, seu irmão, Kim Wexler, seu amor, e Howard Hamlin, seu desafeto.


De novo: BCS não é bem sobre a origem de Saul. É sobre a desconstrução deste. A série desconstrói o personagem, e dessa empreitada, com flashbacks sutis de seu passado remoto, descortina sua origem.


É um trabalho duplo. O primeiro é o de desimpregnar Saul da atmosfera de BB para poder inseri-lo sob novo prisma em BCS. O outro é o de reinserir este Saul desconstruído num universo muito bem construído, que é o de BB, para de quebra também desconstrui-la.


BB e BCS a princípio se mostram distintas. Uma é de temática criminal-familiar. A outra, mistura Romance, Tribunal e Crime. Depois, tudo muda. As temáticas ganham semelhanças entre si, distintas só enquanto suas linhas temporais não se convergem. Quando se convergem, tudo se aglutina em algo só, numa série só, num enorme universo. BCS, nesse sentido, espécie de "prólogo" de seis temporadas, desconstrói não apenas Saul Goodman, mas também a série anterior que deu origem à sua própria "origem".


Mas BCS não representa o mero rebobinar. Não é saudosismo barato, ou fan service. Muito menos extensão de BB. Nada disso. BCS tem identidade, tem força própria e um ritmo melhor do que o de BB (disso, porém, falarei depois).


Sim, ela até começa parecendo uma spin-off insossa, sem nada novo para mostrar, sem muitos caminhos para trilhar. Possui o clima dessas séries que são canceladas em suas primeiras temporadas. Mas isto é só impressão. Afinal, é uma série de Vince Gilligan, e isso não é pouca coisa.


Temos Jimmy McGill, futuro Saul, aos trancos e barrancos advogando. Não trabalha ainda no escritório patético enfeitado pela Estátua da Liberdade inflável. É ainda salafrário menor, o "Slipin' Jimmy" dos tempos de delinquência. Só mais tarde adotará o jingle do comercial de tv: "Melhor Chamar o Saul!"


Há novidades. Há uma vida pregressa a nós até então oculta. Jimmy vive nas sombras do grande advogado que é seu irmão, Chuck, que, apresentado na escuridão à luz de velas, cercado por livros e mais livros, é imbuído de ares gregos, como se à figura de um Sócrates (vide o busto do filósofo numa de suas estantes) se remetesse a de Chuck, brilhante advogado, exímio conhecedor da Lei, pronto para rebater quaisquer falácias de algum "sofista" de plantão.


Oprimido pelo sobrenome McGill, que lhe retira a identidade própria (reconhecem-no só como "irmão do Chuck"), Jimmy, até o fim da terceira temporada, e com a ajuda de Kim, que acredita em seus dotes advocatícios inclinados para o Bem, terá que superar o irmão mais velho que tanto o sabota e que no entanto o ama - à seu próprio modo, mas ama.


Chuck é uma parede limítrofe que torna até certo ponto intransponível a passagem de Jimmy ao Mal. Não é nem nunca foi uma bússola moral, já que imperfeito e às vezes até desonesto (vira em certo ponto os "sofistas" que tanto atacava).


É inegável, porém, que Chuck remeta a tempos mais brandos da série (tanto é que em alguns momentos esquecemos que ele passou pela série, tendo em vista o rumo que ela toma). Pensar em Chuck significa pensar saudosamente, pensar numa "primeira metade" de BCS onde tudo parecia mais fácil. É que nesses tempos "calmos" só interessava a Jimmy desafiar o irmão, ser um advogado esforçado e realizar com Marco seus golpes. Nesse interim, percebe-se, Jimmy quer ser ele mesmo, mas não consegue: ainda renega o seu verdadeiro eu, talvez pelo peso da sombra fraternal. Pois bem, todo este arco dramático reside no que se pode chamar de primeira metade de BCS (da segunda falarei em breve).


Há três grandes trunfos em BCS.


O primeiro é o mais lógico, que é a resposta à grande questão: Jimmy vira Saul, mas como Jimmy vira Saul?


O segundo trunfo é angustiante, porque enfatiza uma lacuna: a ausência de Kim Wexler em BB. Como se sabe, Kim não aparece nela. É peça-chave em BCS, é o amor da vida de Saul, mas se ausenta em BB. Nela, não se fala em Kim Wexler. Nem sequer a citam. Nada. Zero. À sua cada vez mais progressiva relevância em BCS se contrapõe sua figura nula em BB. Morre? Some? Viaja? A resposta é satisfatória.


O terceiro se resume a estas palavras: Cartel, México, família Salamanca, Gus Fring. Elas ressoam vibrantes em nossos ouvidos. Remetem-nos a momentos marcantes, definidores de BB. Parece que foi ontem que assistimos ao Gus expurgando o cartel inteiro de Dom Eladio e este próprio; ao Hector se explodindo com Gus e Tyrus num quarto da Casa Tranquila; ao Hank e Walt, por infortúnio, caindo nas mãos dos nazistas. Enfim, retrospecto.


Nem sempre as coisas foram daquele jeito. Em BCS nada daquilo ainda havia acontecido. Jesse ainda estudava. Walter ainda lecionava. Heisenberg esperava ser invocado. Nesse momento, no entanto, uma turma da pesada já se movimenta. Gus Fring é pouca coisa - mero protegé de Juan Bolsa. O patriarca Hector, para o pavor de Fring, ainda fala e anda. Tuco cuida de sua abuelita; e Nacho, o pobre Nacho, é o seu ombro direito. Mike, cansado e amargurado, mais humano do que nunca, trabalha no estacionamento de uma delegacia. Um universo enfim se reconstrói, com rimas narrativas aqui e ali, intuindo um porvir que não é necessariamente o mero desembocar dos eventos de BB, mas sim o porvir do que foi posto como um "prólogo" válido de ser acompanhado por si só. De um lado temos o Cartel e Gus, futuros digladiadores. Do outro, Jimmy, ainda longe desta sujeirada. É sobre esta distância de mundos que se trata BCS. É aliás por esta distância através da qual transcorre a outra metade da série, cujo início se oficializa com o lamentável fim de Chuck e com o surgimento de um sujeito medonho que dá novos ares à série: Lalo Salamanca.


Se bem que Chuck é mais um intermezzo do que qualquer outra coisa. Ele é um rito de passagem. Representa o que a série foi. Depois então é que vem Lalo, de fato a cara da segunda metade, estremecer as bases de uma ordem supostamente estabelecida. Lalo é o caos. Sua energia caótica é mais metafórica do que patológica - o é como Anthon Chigurh em Onde os Fracos não têm Vez. Lalo é antagonista pleno: mescla-se nele a frieza de Gus, a astúcia de Mike e a jocosidade espalhafatosa de Saul. Mistura perigosa. Lalo embaraça Gus, torna afetada a sua etiqueta. Tira Mike do sério. Ofusca a comicidade de Saul ao pô-lo como um bobo da corte de quinta categoria.


Também Lalo é um recurso narrativo: une tramas dispersas ao reunir a trama de Saul, até então restrita aos tribunais, à trama do Cartel. Justifica o elo Nacho-Saul, em aberto desde a primeira temporada, ao passo que intensifica o arco pai-filho entre Mike e Nacho, com este virando joguete de Lalo e Gus. Nacho vira agente duplo, com a alma aprisionada e condenada pela foices de duas Mortes. Mas quando cai, cai atirando.


À figura letal, "metafísica" e "metafórica", e cada vez mais ameaçadora de Lalo, que despenca do teto como um T100 ensandecido, contrasta-se o elo cada vez forte entre os golpistas Kim e Jimmy. Casam-se numa cena comovente que mistura emoção forte com infantilidade. Eles são um casal, mesmo antes do casamento. Decidem então contar tudo um ao outro, sem guardar segredos. Coincide a essa promessa a primeira cena de transa entre dois, e na transa Saul conta que o seu cliente é um cara perigosíssimo do Cartel.


Quer dizer, eles sempre transaram. Mas só nesse momento intenso é que os vemos. Ora, mas por que só agora? O sexo, nesse momento, intui perigo. Até então, por não aparecerem transando, pareciam meros adolescentes. Agora são gente grande, fazem coisa de gente grande. A finalidade de todos esses elementos coincidirem é a de mostrar Kim e Jimmy unidos no momento no qual há mais probabilidades de eles não ficarem juntos.


O perigo, a cumplicidade, muda Kim. Ela gosta disso. Vai se desvirtuando, tal como Jimmy (ou Saul?). Mesa Verde, a empresa, já não lhe interessa tanto. Sabota-a, junto ao marido, e obtêm sucesso. Gostam do resultado.


No entanto, a medida que realizam seus golpes, uma torrente de atos sórdidos se desencadeia. As portas de um local obscuro se abrem para o que parece ser a vontade deliberada de algum evento cósmico. De um lado, Lalo, Gus e o Cartel. Do outro, Kim e Jimmy. Um elemento se espreita, um bode expiatório. Chuck foi só o começo. Tinha mais. O bode expiatório tem nome: Howard Hamlin. Este ligará definitivamente tudo o que poderia estar disperso entre a primeira e a segunda metade de BCS.


(Antes de falar de Howard Hamlin, preciso acrescentar dois tópicos).


O primeiro: Gene Takovic.


Gene é outra identidade de Saul - a terceira. Saul a consegue após os eventos turbulentos de BB. Precisa começar a vida do zero. Começa-a em Omaha, trabalhando na Cinnabon. O episódio-piloto de BCS, iniciado em flashfoward, mostra este contexto, tal como o início da quinta temporada de BB, com a cena de Walt cabeludo.


No caso de Gene, este tem uma expressão fatigada e um bigode que o deixa velho - está no crepúsculo de suas aventuras. Aqui repete-se a mania "gilliganiana" utilizada em BB: instigar-nos pelos saltos temporais a ver a coisa toda. É um artifício que funciona ainda melhor do que em BB, já que cada temporada de BCS se inicia com cenas de Gene, e se inicia dando a entender que os acontecimentos de Gene se unirão ao desenrolar no tempo passado, isto é, à linha temporal que de fato acompanhamos.


Uma distinção é feita. A cronologia da série é dividida em duas linhas temporais: antes e depois de BB. O antes é colorido. O depois, monocromático. A medida que BCS progride, sua proximidade a BB se atenua. Qualquer fissura cronológica deixa aos poucos de existir. A transição do colorido para o P&B encerra a fissura. Tudo se converge no tempo Presente. BB e BCS viram uma série só.


Segundo tópico: sobre BCS ter um ritmo melhor que o de BB.


Para começar, a vantagem que aquela série tem sobre esta última é sua natural despretensão. Quer dizer, não que BB seja pretensiosa. Não é isso. Apenas, de BCS esperávamos pouco, e dela, no entanto, tivemos mais do que o esperado.


Sim, BCS tem um crescendo mais lento que o de BB. Lento, mas mais funcional. BB ganha gás lá pela metade da segunda temporada. Se engrandece na terceira. Tem seu ápice na quarta. Na quinta, porém, devido a uma ênfase dada talvez até demais à trama Gus-Cartel-Salamancas, é sentido um vácuo pela ausência desta tríade. Sim, é necessário o desfecho da história de Walt e da sua família, Hank precisa descobrir que Heisenberg é o seu cunhado. Mesmo assim, tudo é mais mórbido. Daí o artifício do salto temporal mostrando Walt cabeludo. O motivo: fazer com que a série seguisse adiante, mesmo sem a presença de Gus e dos Salamanca.


Com BCS, Gilligan se torna mais autoconsciente. Tem desta vez as ferramentas certas e sabe usá-las melhor. BCS, com efeito, é uma série mais sóbria. Nela, nenhuma trama se sobressai mais do que outra. Existe um equilíbrio dramático melhor do que a que se vê na série precedente; e quando todas as tramas precisam se entrecruzar, também o equilíbrio se apresenta. É que também conta aqui a força menor que decorre de certos elementos: nem tudo está posto com a intensidade como a que se vê em BB. Gus não é o Gus de outrora. Nem o Cartel. Nem Saul. Etc. Conta ainda o diferencial: a história de amor entre Kim e Jimmy.


BB, nesse sentido, espécie de imenso flashfoward, atiça-nos a responder a seguinte pergunta: como estes personagens se tornarão aquilo que vemos em BB? A pergunta é respondida, embora com certos malabarismos que tornam o fim da série um pouco inflado, o que não impede a experiência de concluir seu desfecho agridoce.


Agora, sem mais delongas, Howard Hamlin - e aí concluo o texto.


Howard é um coitado. Sofre todos os revezes de um destino cruel. Kim e Jimmy provocam este destino, e o fazem até as últimas consequências. Primeiro o gaslighting com a morte de Chuck. Depois, a armação com as prostitutas e com a cocaína falsa. Por último, antes da desgraça lá pelo fim de "Plan and Execution", o mico com o juíz. Kim e Jimmy ignoram as implicações de suas ações vistas sob um pano de fundo maior. Ignoram que são joguetes de uma vontade cósmica. Serão confrontados pelo karma - e mal sabem disso.


Nota-se a certa altura de BCS significativa mudança em Howard. Ele amadurece. Muda a postura. Adere a uma filosofia de vida bem específica, supostamente a budista. Gravou na placa do seu carro a palavra "Namastê", pertencente ao Budismo, que quer dizer algo como "o Divino de alguém reconhecer no próximo o mesmo Divino". Isto resume a nova postura de Howard, mesmo após tantas tribulações: anda sempre ereto, a cabeça erguida e o rosto sorridente.


A princípio parecendo ser mero personagem caricato, com o tempo Howard passa a aparecer uma figura com uma aura mística, com seu cabelo branco arrepiado o assemelhando a uma divindade oriental. Seu aspecto "zen" nos diz tudo: esse cara é da paz, não faz mal a ninguém.


De volta ao karma. Este conceito quer dizer: para toda ação realizada há uma reação de igual intensidade na direção de quem a realizou. Toda uma torrente de ações hostis é realizada visando destruir Howard até que este não aguente o fardo e se mate. Pois bem, o destino tratará de agir. Não deixará barato. Uma força hostil se prepara: reagirá. A força hostil é desencadeada por Lalo, algoz de Howard, que baleia-o na cabeça, realizando a cruel reação em respostas àquelas ações sórdidas de Kim e Jimmy.


Howard e Lalo são dois polos. Quando enterrados um do lado do outro, mandam esta mensagem. Mike, ponto de vista moral, ao olhá-los de cima, antes de enterrá-los sobre o chão do futuro laboratório de metanfetamina, corrobora a mensagem: Howard é o Bem encarnado, a ordem enquanto tal; Lalo, o Mal, o caos enquanto tal. Howard é a janela através da qual vemos dois mundos distintos num só, e que se fundem justamente quando esta janela se fecha, isto é, quando Howard morre, que conhece um mundo até então desconhecido poucos minutos antes de morrer. "Acho que estou no meio de algo", diz ingenuamente a última frase que completaria.


Este trágico acontecimento visto em retrospecto reabre uma ferida em nós. Reabre também em Saul, que convive com a dor. O último frame de "Fun and Games" de Saul em sua mesa no escritório nos diz algo que em BB se manteve oculto: a jocosidade mordaz era uma máscara de um homem triste. Jimmy pode tentar ser Saul, Gene ou quem quer que seja. Não adianta. Ele sempre será Jimmy, o Jimmy infeliz, que teme ser esquecido, que se arrepende por suas más ações, embora renegue isso. O resultado de sua descontrução em BCS é o fato de sabermos disso só olhando seu semblante. Saul Goodman é Jimmy McGill, não o contrário.