• Matheus Oliveira

Uma Palavrinha | As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972)

Atualizado: 22 de Out de 2020


Petra von Kant, no início, relata à sua criada Marlene que teve um sonho horrível. Mas que sonho terá sido? Talvez uma epifania? Talvez algo que revelasse sua verdadeira natureza, esta que reside em seu subconsciente, mas que Petra, a todo momento, a reprime com seu narcisismo afiado? Pois bem, é possível que seu sonho tenha algo a ver com isto, e a cena final, bem escura e banhada por uma penumbra onírica, talvez seja o vestígio de mais um de seus sonhos - ou então, neste caso, "pesadelos", já que o que Petra enxerga é na verdade aquilo que ela realmente é, mas que de tão terrível tal identificação, renega o seu Eu autêntico, e teima sempre em reprimi-lo. No fim, ela sofre... e sofre... e então, como sempre, desconta todos os surtos e chiliques em sua criada, mas não entende o porquê de tanto sofrimento (reprime aquilo que a faz retornar a si mesmo). Ela ataca, e então o ataque volta nela. E Marlene, enfim, é a resposta de todo o mistério: ela é o seu duplo, composto por um quê de masoquismo inerente em todo ser humano (é aquela parte frágil do ser, aquela parte que sabe que é sujeita a tudo, até mesmo ao sofrimento, que pensa ser imune) e por isso não fala nada, só sente e nada diz. A pálida Marlene, em suas vestimentas sempre escuras, representa a profundeza da alma podre de Petra.


NOME ORIGINAL: Die bitteren Tränen der Petra von Kant. DIREÇÃO: Rainer W. Fassbinder. ROTEIRO: Rainer W. Fassbinder. ELENCO: Margit Carstensen, Hanna Schygulla, Katrin Schaake, Eva Mattes, Gisela Fackeldey e Irm Hermann. DURAÇÃO: 125 min.


Sobre o autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Amante de Cinema e leitor assíduo. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Tem como inspiração para seus escritos o legado de grandes pensadores desta área, de Bazin à Pauline Kael. De forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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